Em termos históricos é possível identificar 3 modelos ou paradigmas distintos para a Universidade moderna, que não existindo de uma forma pura em nenhum sistema representam as grandes tendências de organização e função das instituições de educação superior, com origem no séc. XIX:

  • O modelo inglês, de inspiração newmaniana, ligado ao paradigma da personalidade e que coloca o ênfase na educação liberal e na formação integral do indivíduo;
  • O modelo francês, de inspiração napoleónica, ligado ao paradigma de educação profissional de subordinação estatal, e que se caracteriza por uma forte separação entre as instituições de ensino e investigação;
  • O modelo alemão, de inspiração humboldtiana, que se caracteriza por um grande ênfase na autonomia, liberdade de investigação e de ensino através do conhecimento académico.
  • Sem pretender dissertar sobre os modelos de organização da educação superior, parece evidente que, numa altura em que se pede à Universidade que repense a sua missão e se adapte aos novos desafios, a discussão deveria em primeiro lugar centrar-se no modelo que melhor se adapta à nova realidade e às características da nossa Universidade e do meio em que esta se insere.
    Este exercício deverá ter em consideração as orientações políticas e o quadro jurídico/administrativo existente. Desconhecendo-se de momento as intenções concretas do Governo em relação à política de Ensino Superior, é contudo possível analisar o pensamento dos actuais responsáveis. Em 2000 o actual Secretário de Estado do Ensino Superior, Manuel Heitor, defendia as seguintes orientações para a Universidade Portuguesa (Conceição, P., Durão, D.F.G., Heitor, M. V e Santos, F., “Novas Ideias para a Universidade”, IST Press, Lisboa, 1998):

  • Quadro jurídico-administrativo próprio que coloque as universidades no âmbito da administração autónoma do Estado ou do direito privado;
  • As universidades devem deixar de ser tuteladas numa óptica de sistema e passar a ter autonomia organizacional;
  • O conhecimento deve ser colocado em papel de destaque na gestão da universidade;
  • Deve ser premiada a diferenciação institucional, associada a uma maior responsabilização e eficácia.
  • Mas serão esses modelos inconciliáveis? Não será que o maior desafio a uma universidade que se queira competitiva é o de melhor conseguir extrair e conciliar de cada um daqueles modelos? Afinal, é o que as “top” americanas sempre fizeram e é, provavelmente, a chave do seu segredo de sucesso. É interessante verificar que as Universidades que constituem a elite conhecida por “Ivy League” se caracterizam pela reduzida dimensão da sua população escolar pré-graduada, sendo os extremos o Dartmouth College com cerca de 4 000 alunos e Cornell University com 13 700 alunos. Dartmouth é um exemplo paradigmático de como a reduzida dimensão, desde que associada à alta qualidade, pode levar à excelência:
    “The scale of the College ensures the intimacy of a liberal arts college, while providing research opportunities typically found at much larger institutions. (…)

    For the Class of 2009, there were 12,756 applications and 2,150 admissions; approximately 1,092 students will enroll.(…) The Arts and Sciences consist of 39 academic departments and programs(…)The College has about 350 tenured and tenure-track faculty, including the highest percentage of tenured women in the Ivy League.(…) today more than 500 students are enrolled in graduate studies in the college. Eighteen graduate programs, including biochemistry, biological sciences, chemistry, cognitive neuroscience, comparative literature, computer science, earth sciences, electro-acoustic music, engineering, evaluative clinical sciences, genetics, liberal studies, mathematics, microbiology and immunology, pharmacology and toxicology, physics and astronomy, physiology, and psychological and brain sciences, are currently offered.”
    http://www.dartmouth.edu/home/about/facts.html

    Dartmouth não é apenas um exemplo paradigmático porque sintetiza o conceito de “small is beautiful” mas também porque combina a educação liberal na pré-graduação com o ensino profissionalizante na graduação:
    Dartmouth Medical School: The Medical School encompasses 16 clinical and basic science (…) With more than 2,300 faculty and researchers — including approximately 900 full-time faculty — committed to excellence in biomedical research, education, patient care and service (…) enrolls a diverse mix of about 500 medical and graduate students (…)
    Thayer School of Engineering: The nation’s first professional school of engineering(…) Its interdisciplinary programs, conducted by 45 full-time faculty members, serve approximately 600 undergraduate students and approximately 162 graduate students(…)
    Tuck School of Business (…) offers only one degree program–the full-time MBA (…) Approximately 240 students (…) more than 20 nationalities(…)
    http://www.dartmouth.edu/home/about/facts.html

    Nessa síntese, há aspectos que as nossas universidades sempre assimilaram: a importância humboldtiana da investigação cientifica, o interesse social da formação profissional de alto nível. Distante da nossa cultura universitária está o outro elemento, o da educação liberal.
    Por isto, ainda pensamos na universidade como a fábrica dos técnicos superiores. Um dos desafios que cada vez mais se colocará às nossas universidades - e à nossa cultura - é o da subordinação da educação ao treino profissional, agora dominante. Não deviam ser incompatíveis; pode haver excelente treino profissional no quadro da educação liberal newmaniana, como ele próprio discute, e isto numa época em que se volta a reconhecer que a aquisição de competências é mais importante do que a dos conhecimentos, rapidamente perecíveis. É só uma questão de filosofia e de valores. Afinal, voltamos à questão fundamental, já discutida: formar para o emprego ou para a empregabilidade?
    Tentando traduzir em fórmula simples o pensamento do Cardeal Newman, dir-se-ia que “a universidade educa as mentes e forma o carácter. É a educação liberal. Ela é que é a base da educação útil, a profissional“. No célebre dito de Dickinson, “a educação prepara as mentes para que nelas caiba todo o universo”.
    Por toda a parte, esta filosofia de educação, aparentemente ultrapassada pelo sentido utilitarista e profissionalizante do ensino superior do último meio século, está a voltar às prioridades da agenda de reforma universitária, nomeadamente nos Estados Unidos.
    A educação liberal é o ensino superior concebido como alta educação nas ciências e nas humanidades, com a versatilidade necessária para educar no que o indivíduo quer, construindo pessoalmente a sua cultura e sem demasiadas preocupações utilitaristas, de treino para uma profissão especializada. Marca tanto a noção de “well educated gentlemen” da universidade inglesa que hoje, um século passado, ainda se pode considerar rigoroso o termo newmaniano para o sistema universitário inglês (ou, mais correctamente, de Cambridge e Oxford).
    No essencial, podem-se entender os objectivos da educação liberal como, entre outros: o desenvolvimento das capacidades mentais e da capacidade de aprender ao longo da vida, a ética do conhecimento; a largueza cultural e de perspectivas racionais de análise; o gosto pela iniciativa, responsabilidade pessoal e inovação; a compreensão multicultural e os valores da inclusividade; a cidadania, a solidariedade e a intervenção cívica.
    A educação superior deve dar o substrato cultural e a elasticidade mental para a adaptação a todas as situações concretas de vida e opõe-se à noção utilitarista da formação universitária, a que prepara estritamente para uma actividade profissional. É neste sentido que esta visão secular está muito mais próxima do conceito moderno de empregabilidade, que discutimos atrás.
    Neste sentido, a educação liberal liga-se estreitamente ao paradigma de Bolonha, quando este dá primado às competências em relação à informação científica e técnica, mesmo a de relevância para a formação profissional.

    Recomendamos que a Universidade da Madeira se distinga das restantes instituições portuguesas pela adopção clara de um modelo de educação liberal que dê primado às competências em detrimento da informação científica e técnica e da formação profissional.

    Deve-se reconhecer, todavia, que não é fácil a defesa de tal modelo numa sociedade como a nossa, em que a procura do diploma universitário visa imediatamente o emprego numa profissão tida, tradicionalmente, como de “nível universitário” e em que a maioria das pessoas, licenciados incluídos, se declara satisfeita com o que já aprendeu.
    Aceitamos que ainda não estão reunidas as condições para fácil aceitação de um modelo de educação liberal. Neste sentido, não é realista copiar experiências alheias, antes adaptá-las às nossas condições, mas sem prejuízo dos conceitos fundamentais. Assim o modelo deverá ser desenhado para permitir uma implementação gradual, à medida que formos aprendendo com a experiência de adaptação do modelo de educação liberal ao nosso contexto. Simultaneamente é necessário reconhecer que algumas formações profissionalizantes não se adequam ao modelo liberal. Daí que seja necessário conjugar, nem que seja temporariamente, os modelos profissionalizante e liberal.
    Mas que os detractores da educação liberal não se esqueçam de que “40% dos 500 executivos de topo listados em 2000 pela Fortune fizeram estudos universitários de educação liberal” (William Durden, “Making the Case for Liberal Education, Liberal Arts for All, Not Just the Rich”, Chronicle of Higher Education, October 18, 2001).

    Recomendamos que a Universidade da Madeira opte por um modelo misto, de educação liberal no 1º ciclo e de educação vocacional no 2º, sem exclusão de um 2º ciclo de aprofundamento da formação científica. Excluem-se ao nível do 1º ciclo as formações profissionalizantes com tradição na UMa: Enfermagem, Educação de Infância e Básica, Serviço Social.