A declaração de Bolonha dá ênfase a que o 1º ciclo deve ser relevante para o mercado de emprego. É óbvio que qualquer estudante procura o ensino superior para que este lhe dê acesso a um emprego favorecido. Na altura, muitos entenderam isto como um reforço da tendência das décadas precedentes para um ensino superior estritamente profissionalizante e especializado, de que Portugal foi um exemplo extremo. Este conceito está hoje a ser colocado em causa.

“Já não há empresas com um futuro garantido; já não há emprego para a vida, sobretudo no mesmo local; já não há acomodação a um estilo de vida; e já não existem sucessões monárquicas. (…)
A exigência de formação para os novos líderes do mundo moderno impõe uma total flexibilidade e mobilidade para actuar na geografia que for determinada, nos sectores com futuro mais promissor. Como consequência das considerações geoestratégicas cada vez mais importantes, exige-se a estes profissionais maiores conhecimentos gerais, não só técnicos, mas também nas áreas soft das ciências do comportamento (como a Sociologia e a Psicologia), nas áreas especulativas (como a Filosofia e as Ciências da Vida) e na área das Relações Públicas e de Diplomacia Económica.”
Belmiro de Azevedo, Prefácio do Livro, “Vencer”, Jack Welch, Actual Editora, 2005.

É necessário enquadrar este problema nas grandes mudanças da sociedade do conhecimento e da nova tipologia do trabalho. O trabalho tayloriano está a chegar o fim, pelo menos nos sectores mais inovadores. Deixou de haver a linha de montagem em que cada um tinha um lugar definido. Hoje, produz-se por projectos, temporalmente definidos, com equipas interdisciplinares. O líder tem de abarcar diversas abordagens, de dominar nos fundamentos cada uma delas, de ter competências de direcção e de potencialização do trabalho de equipa. Os especialistas já não podem ser só isto, têm de conhecer a linguagem dos outros membros da equipa. Daí, o essencial do paradigma: formações de banda larga mas com grande solidez científica; primado da aprendizagem activa em relação ao ensino passivo tradicional; valorização da aquisição de competências em relação à aquisição de conhecimentos perecíveis.
Hoje já não se discute que a capacidade de aprendizagem é um aspecto crítico para o crescimento económico e à sua associação à capacidade de assimilação e transformação do conhecimento. Num mundo globalizado a capacidade de inovação é determinante para o desenvolvimento social e económico. E a inovação hoje faz-se com um enorme gap de competências: em 2010 estima-se que 80% da tecnologia terá menos de 10 anos enquanto que 80% da força de trabalho adquiriu as suas qualificações há mais de 10 anos. Neste novo contexto o papel do professor/investigador, como empreendedor social e criador de capital humano, tem que ser relevado. O conhecimento não é estático mas inclusivo: da educação inicial para a vida à aprendizagem flexível ao longo da vida.
Começam então a distinguir-se dois conceitos hoje objecto de grande discussão teórica a prática: a empregabilidade, que é um conjunto de competências que permitem mais fácil inserção no trabalho, mesmo que em profissões não relacionadas com a formação específica; e a formação profissional, mais estreita e sem essa flexibilidade, que prepara apenas para uma profissão. A diferença essencial é que a empregabilidade não diz respeito a uma formação específica, mas à aquisição de condições culturais e intelectuais que permitem uma mais fácil adaptação a um posto de trabalho específico. Em todos os países desenvolvidos, há hoje milhares de empregados em tarefas que não estamos habituados a considerar como de formação superior (bancários, gerentes comerciais, administrativos, etc.) e que têm enormes vantagens competitivas no emprego pela sua qualificação intelectual e cultural e pelas suas características adquiridas de iniciativa, adaptação, flexibilidade, comunicação, etc.
Os dados portugueses comprovam-no: os licenciados ganham, em média, duas vezes mais do que os que não possuem formação superior, são menos afectados pelos despedimentos colectivos e, se no desemprego, conseguem reemprego em metade do tempo médio dos restantes trabalhadores. Mas o que é importante notar é que, já entre nós, isto não está directamente relacionado com o emprego na sua área específica.
Assim, o primeiro ciclo deixa de ter como objectivo único a entrada no emprego, abrangendo também a simples preparação para estudos posteriores, sem objectivos profissionalizantes. Isto corresponde a uma tendência real, em diversos países europeus, em que a maioria dos estudantes não se satisfaz com o primeiro ciclo e o quer usar apenas como fase de prosseguimento para o segundo ciclo.