Os indicadores apresentados anteriormente contrastam com a dialéctica quotidiana de uma Universidade inserida numa pequena região ultraperiférica. É muito mais difícil manter a integridade institucional e ambicionar à excelência quando para o meio envolvente alguns desempregados qualificados parecem assustadoramente mais importantes que os diferenciais estatísticos só possíveis de reduzir em gerações.
Um dos principais constrangimentos das universidades insulares é a dimensão e a grande rigidez do mercado de trabalho e, por consequência, de uma definição sustentada de ofertas educativas. Tem-se como regra geral que um número adequado de universidades é de uma por cerca de um milhão de habitantes. A UMa insere-se numa região ultraperiférica com menos de 250 000 habitantes.
Embora, no continente, a procura do ensino superior ainda tenha muitos determinantes geográficos, de proximidade da residência familiar, há um relativo grau de mobilidade que permite às universidades programarem a sua oferta com dimensão nacional. No caso dos licenciados pelas universidades insulares, não há dados fidedignos que mostrem qual o destino profissional dos seus licenciados, mas parece credível que, por razões familiares, culturais, de desconhecimento da realidade continental, o principal objectivo dos estudantes é permanecerem na sua região, uma vez licenciados. Aliás, isto não parece afastar-se do panorama geral da (i)mobilidade dos nossos diplomados, a nível nacional.
Se, na prática, o mercado continental de educação/trabalho se mede por milhões, a pequena dimensão do equivalente madeirense constrange a capacidade estratégica da sua universidade. Ela pode detectar nichos de procura interessantes e de impacto local, mas muitas vezes eles correspondem a necessidades regionais rapidamente satisfeitas por algumas dezenas de licenciados. É óbvio que não é sustentável o investimento em meios humanos e materiais para a abertura de cursos que deixarão de ter procura em poucos anos.
Também a dimensão de maior escala, pelo menos nas universidades tradicionais de grandes zonas urbanas, tornaria possível, teoricamente, concentrar saberes hoje em crise de procura mas essenciais à nossa vida cultural e enriquecedores da pluralidade cultural da própria universidade. Infelizmente, assiste-se até é à desconcentração, com grandes prejuízos de eficiência.
Numa pequena universidade, não é praticamente possível alargar tanto quanto minimamente desejável o leque de formações ou actividades científicas de base. Mas será concebível como universidade uma instituição em que não exista um núcleo mínimo de qualidade (de professores e de actividade científica e formativa) nas áreas fundamentais das ciências e das humanidades? Pode-se dizer que uma universidade não é obrigatoriamente de menor qualidade se orientada para uma gama relativamente estreita de áreas científicas e formativas, mas, em geral, isto acontece com universidades que estão bem relacionadas, até por proximidade geográfica, com outras que preenchem o padrão clássico, entendido como uma mínima “universalidade” (de universidade) dos seus saberes.
Pode-se duvidar de que as grandes universidades, uma amálgama de culturas muito diversas, com professores de todos os tipos, consigam elaborar uma cultura dominante conforme ao paradigma de Bolonha. Pelo contrário, uma pequena universidade com grande osmose cultural interna e se com um grupo docente dominante de jovens doutorados, muitos dos quais no estrangeiro, com outras vivências, tem mais facilidade em transformar-se coerentemente de acordo com novos paradigmas.