O processo de Bolonha transformou-se num paradigma. É incontestavelmente o motor de toda a actual reflexão sobre a educação superior europeia. É instrutivo reflectir sobre as razões da sua enorme aceitação pela comunidade académica, tão conservadora. O processo de Bolonha polarizou o debate e a procura de soluções para problemas que se vinham a acumular na década anterior: desajustamento às exigências do trabalho na sociedade do conhecimento, massificação, diminuição do financiamento, rigidez do sistema com escassa diversidade e capacidade de adaptação, falta de competitividade, ineficiência das relações com a sociedade, insucesso escolar.
Por isto, não nos fixemos na nossa Europa. Igual movimento de reflexão e reforma passa por todo o mundo: a reforma do 1º ciclo em Harvard; o Futures Project, lançado pela U. Brown e que está a mobilizar muitas universidades americanas; a reforma muito interessante da educação superior da Austrália e da Nova Zelândia; a reconversão das universidades predominantemente formativas-tecnológicas do Japão; as experiências inovadoras na América Latina, caso especial de grande peso das universidades privadas, sujeitas a pressões de mercado que as nossas esquecem.
Tudo isto acontece no contexto de instituições singulares e profundamente tradicionais que são as Universidades. Não nos podemos esquecer que das 85 instituições que subsistiram desde 1520 até ao fim do século XX temos a Igreja Católica, alguns Cantões Suíços e 70 Universidades. As Universidades são as únicas instituições que sempre foram orientadas para a criação de transmissão de conhecimento. Embora estruturadas em torno de áreas científicas disciplinares, possuem um elevado grau de autonomia, não só em relação ao exterior, mas também em cada académico.
Este breve resumo permite verificar facilmente que o Processo de Bolonha é muito mais do que uma simples declaração de intenções restrita aos países da União Europeia. Pelo contrário Bolonha implica a criação de um Espaço Europeu de Ensino Superior (EHEA), colocando às instituições de Educação Superior objectivos claros e datados que serão periodicamente aferidos no conjunto alargado de países signatários. Bolonha implica ainda padrões de reconhecimento internacional dos programas e ciclos de formação, com os quais as instituições serão confrontadas a médio prazo. Finalmente, Bolonha não compromete exclusivamente os ministérios com a tutela da educação superior, a autonomia das instituições implica uma responsabilidade acrescida em atingir os objectivos propostos para 2010.