A transição dos alunos do ensino secundário para o ensino superior é reconhecidamente um processo complexo e indutor do abandono e insucesso escolar. Os indicadores disponíveis a nível nacional apontam para elevadas taxas de abandono, insucesso e mudanças de curso em todo o sistema. A análise detalhada destes indicadores levada a cabo na UMa demonstra claramente com significado estatístico que mais de metade dos abandonos acontecem enquanto o aluno está inscrito no primeiro ano do curso. As taxas de insucesso escolar são também mais elevadas no primeiro ano, bem como o número de pedidos de transferência e mudança de curso que acontecem preferencialmente para o primeiro ano.
Pelas razões mencionadas, e pela importância que o primeiro ano de estudos superiores envolve no modelo de educação liberal, torna-se fundamental que a organização e estrutura deste primeiro ano seja alvo de atenção particular. Esta evidência contrasta claramente com a forma como os primeiros anos dos diferentes cursos são organizados na UMa e nas demais instituições nacionais que seguem a tradição profissionalizante. A tradição da educação liberal é proporcionar aos estudantes no primeiro ano as ferramentas necessárias à exploração intelectual que permitem sustentar o seu percurso académico, focando um conjunto de competências fundamentais para qualquer domínio do saber. Reconhecendo que a maioria dos alunos não tem a experiência necessária para escolher a sua área de interesse quando entra na Universidade, a educação liberal incentiva o contacto com a maior diversidade possível de áreas, incluindo as que os alunos nunca desenvolveram durante os seus estudos secundários. Este facto é saliente na revisão curricular de Harvard:

Freshman year should be a time for students to explore broadly, to sample college-level work in both familiar and unfamiliar fields, and to discover new academic passions. It should also be a time to experience small faculty-led seminars that foster intellectual engagement, inquiry, and debate.
Harvard Curricular Review, http://www.fas.harvard.edu/curriculum-review/

Por mais estranha que esta tradição possa parecer para quem está habituado ao modelo profissionalizante, não deixa de ser sintomático que os níveis de ineficiência aumentem enquanto que as instituições que seguem o modelo liberal recomendem insistentemente que o papel da componente nuclear dos curricula seja aumentado, adiando para o terceiro semestre a escolha da concentração:

Later concentration choice at many other institutions does not seem to prevent students from acquiring an excellent education overall and in their chosen field. We recommend that concentration choice be moved to the end of the first term of the sophomore year.
Harvard Curricular Review, http://www.fas.harvard.edu/curriculum-review/

Assim, parece evidente que ao optar por um modelo de educação liberal a UMa deverá introduzir profundas alterações ao primeiro ano de estudos, com o objectivo de proporcionar aos alunos uma experiência muito mais enriquecedora, centrada nas competências transversais, e que simultaneamente permita aos alunos explorarem diferentes áreas do saber antes de definirem o seu domínio de concentração. Obviamente que a implementação deste modelo de primeiro ano terá que ser compaginável com a estrutura de acesso legalmente em vigor em Portugal, mas o facto de existirem numerus clausus e provas de ingresso não é impeditivo da criação de um acesso generalizado, ainda que necessariamente dependente de critérios de qualidade, para a UMa.

Recomendamos que a Universidade da Madeira proponha um modelo de acesso diferenciado que permita aos alunos escolherem a sua concentração (ou especialização) apenas no final do 1º ano. Para permitir uma melhor adequação à legislação em vigor o modelo deverá permitir o acesso por duas grandes áreas (ciência e tecnologia; artes e humanidades) para as quais devem ser definidos critérios mínimos de acesso que garantam a necessária qualidade.

No entanto, não se deve considerar o primeiro ano como um currículo rígido de “cultura e formação intelectual”, com organização única. Essa formação geral e comum, que, obviamente, implica uma programação muito imaginativa, interdisciplinar e contrária aos nossos hábitos de independência departamental, deve ser completada com uma proporção razoável (por exemplo, de 2/6 conforme foi proposto anteriormente) de disciplinas optativas oferecidas por cada departamento. Mas o modelo de educação liberal implica que, de entre essas disciplinas optativas, um aluno possa escolher livremente álgebra, biologia molecular, filosofia das ideias, literatura, fundamentos da economia, pintura, etc.
Por outro lado, é essencial não se confundir a “disciplina” de educação geral com uma espécie de banalização da formação científica, como se fosse apenas uma repetição de melhor qualidade do 12º ano. Para dar um exemplo elucidativo, um problema importante a discutir pode ser, por exemplo, a física no mundo de hoje. Isto não deve ser feito com a repetição das leis da física, mas sim com a compreensão de como elas estão subjacentes a toda a nossa vida diária. Porque é que o céu e o mar são azuis? Porque é que a água do lavatório escoa só num sentido? Porque é que o crepúsculo é vermelho? Isto não adianta à nossa satisfação de saber? É verdade que algumas leis físicas são supérfluas para o quotidiano, mas outras são essenciais, como a lei de Ohm para decidirmos da potência a instalar no nosso contador de electricidade. Também não se vai repetir o que os alunos de matemática aprenderam sobre o cálculo de probabilidades, mas fazê-los reflectir sobre como, no dia a dia, o temos de o aplicar para as nossas decisões.

Recomendamos que a organização das disciplinas oferecidas no 1º ano dependam de uma estrutura que não emane dos departamentos mas sim de um órgão com capacidade de intervenção transversal.