Seguem-se alguns comentários ao contributo da CC do DCE. Dividirei a minha resposta em duas partes porque entendo que são completamente distintas.

“Para que serve a UMa?“, “No caso de a UMa continuar a atrair candidatos…”

A posição do DCE propõe que a estratégia da UMa deverá passar pela manutenção do modelo profissionalizante apostando na “internacionalização” da função de ensino, procurando novos mercados na CPLP tirando partido da situação geográfica da RAM.
A argumentação do DCE assenta essencialmente em dois pressupostos: i) que actualmente a UMa está limitada pela exiguidade do mercado em que se insere (quer em termos de procura de alunos e de oferta do mercado de emprego regional), ii) que a estratégia de “internacionalização” da função ensino é travada pela “inconcebível dispersão por 12 unidades orgânicas” limitadora de uma “reorganização em nome do objectivo político da mobilidade”.

Analisemos esta argumentação começando pelas limitações do mercado de procura:

    i) O nº de alunos da UMa cresceu significativamente nos últimos anos, actualmente (2005/06) temos mais 40% de alunos do que na década anterior, e mais 6% do que há 5 anos quando o sistema em Portugal iniciou a quebra por questões demográficas.
    ii) a UMa nunca atraiu tantos candidatos como agora, em 2003/04 candidataram-se à UMa em 1ª opção na 1ª fase 351 alunos, em 2004/05 este número quase que dobrou para 621 alunos (sem conc. local) e este ano mesmo com as mudanças no acesso este número foi de 615 candidatos.

Admito que estes dados concretos não têm o valor de um exercício de “scenario planing”, mas dizem muito de como devemos conhecer bem a nossa realidade antes de decalcarmos os problemas de outros.
Mas passemos ao mercado de emprego e à estratégia de “internacionalização” da função ensino. Não estará a UMa inserida numa região e num pais com graves problemas de fraco nível de educação formal da sua população activa? Deverá uma instituição inserida neste contexto apostar essencialmente uma estratégia de “internacionalização” da função ensino?
Reconheço que esta assumpção que a UMa também “serve” para formar quadros qualificados para o mercado regional tem pouco de “grandiloquente”, mas não nos podemos esquecer que somos financiados pelo contribuinte português. Que nos compete ainda uma enorme função social de proporcionar acesso ao ensino superior a muitos que não têm possibilidades financeiras para o fazer no continente.
Finalmente surpreende-me que quem “tem feito um esforço para acompanhar o que se passa à sua volta” ainda considere que Bolonha exige uma mera reorganização em nome da mobilidade. Como coordenador da proposta assumo definitivamente que não. Como se depreende da breve resenha histórica o Processo de Bolonha desde pelo menos 2001 deixou de ser meramente um instrumento de incentivo à mobilidade.

O contributo do DCE tem o mérito e a legitimidade de confrontar duas visões estratégicas distintas. Resta clarificar quais as consequências de manter a aposta integral num modelo profissionalizante que vise essencialmente a internacionalização da função ensino. Como o contributo do DCE não elabora esta visão estratégica deixo algumas questões na esperança de as ver esclarecidas:

  • Poderá a UMa ser competitiva no modelo profissionalizante? Em todas as áreas (“inconcebivelmente dispersas”)? Na formação de professores e na saúde, nas ciências e tecnologias, nas ciências sociais e humanas? Quais devem ser as áreas a incluir e excluir? O que propõe o DCE para as áreas a excluir?
  • Poderá a UMa competir com as restantes instituições congéneres neste modelo tirando partido da sua reduzida dimensão e localização? Qual destas duas características tornam a UMa mais atractiva do que uma Faculdade de Letras, de Ciências, de Psicologia ou de Engenharia - que oferecem os mesmos cursos em Lisboa, Porto, Coimbra, Braga, Algarve… com incomparavelmente mais meios, e desde há alguns anos com excesso de capacidade para a oferta?
  • Voltando à pergunta retórica, para que serve a UMa neste cenário? Exclusivamente para formar quadros dos CPLP? Como é que esta missão se enquadra nas necessidades regionais e nacionais de aumentar a qualificação dos portugueses para contribuir para o necessário aumento de competitividade do nosso pais? Como é que esta estratégia serve os interesses dos estudantes (mais desfavorecidos ou menos atraídos pela mobilidade) que pretendem prosseguir os seus estudos na RAM?
  • Que outras instituições alcançaram a excelência através da internacionalização da função ensino ao nível da pré-graduação (1º ciclo)? Quantas Universidades de referência têm uma estratégia de internacionalização ao nível da pré-graduação? Quais são os exemplos de capacidade de atracção de estudantes a este nível?
  • Termino esta primeira reacção ao contributo do DCE esclarecendo que não concebo a função investigação de uma Universidade sem ser “internacional”. Considero que a “internacionalização” da Universidade se faz essencialmente pela via da investigação e da formação avançada e não pela formação inicial.

    Nuno Jardim Nunes


    No Responses to “Resposta ao contributo da CC do DCE (I)”  

    1. No Comments

    Leave a Reply

    You must log in to post a comment.