“Em defesa da honra”

Li com atenção o texto do DCE, “Dúvidas e perplexidades que a proposta do ‘grupo de Bolonha’ não esclarece”. Até agora, mantive-me à margem da vossa discussão, salvo um ou dois pequenos comentários a “posts” neste sítio. Limito-me a cumprir um contrato de consultoria muito aliciante que me foi proposto. A situação mudou agora, porque fui directamente interpelado:

“Como é evidente, nada temos contra a colaboração de quem quer que seja, incluindo a que o Professor João Vasconcelos Costa possa vir a dar sobre a reorganização da UMa, ainda que nos pareça que talvez seja mais interessante diversificar a procura de contributos e influências. Mas não deixa de perpassar no nosso espírito esta pergunta: será que o referido Professor já conseguiu instituir o modelo de Harvard e da educação liberal na sua universidade?”

Caro colega, certamente que já teve curiosidade de ir ver as minhas credenciais e tudo o que tenho escrito. Talvez isto seja desconhecido de alguns colegas da UMa mais atarefados. Sugiro-lhes uma visita ao meu portal sobre a educação superior, http://jvcosta.planetaclix.pt . De qualquer forma, os meus créditos mereceram a confiança da Reitoria da UMa e é o que me interessa, para este efeito.

Não tenho o exclusivo de uma reflexão actualizada sobre a educação superior. Outros a partilham, embora poucos. Muitos mais no estrangeiro, onde tenho grandes amigos profundamente envolvidos na reforma das universidades. Cito-os com frequência nos meus escritos, vá lá ver. Admito que isto seja uma discussão assimétrica porque, certamente por falha minha, não conheço o que o colega tem escrito sobre a educação superior. Se a Reitoria da UMA quiser contratar outros consultores, isto em nada me choca. São as regras de uma actividade em que actuo com bom estilo profissional.

Provavelmente o meu colega também tem reflectido e escrito sobre a politica e estratégia da educação superior. Como não consigo dominar toda a bibliografia, ficava-lhe grato se me desse a conhecer os seus trabalhos.

Quanto à sua última pergunta, é pena que não me conheça melhor, o que lhe evitaria o chamado “tiro no pé”. Não vou falar do que foi a minha participação decisiva nos Estudos Avançados de Oeiras, do meu então Instituto Gulbenkian de Ciência. Mas escreva a qualquer um dos meus muitos entusiastas colaboradores na reforma do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, enquanto fui director. É claro que a situação é diferente, porque o ensino do instituto é só de mestrado, mas as ideias fundamentais de educação mental, competências, questionamento mental critico, perspectivas interdisciplinares, etc., estão lá todas, nos programas que pode consultar. Anote-se que todo esse meu trabalho de influência foi feito em 1997 a 1999, ainda não havia Bolonha. Digo de influência, porque não decretei nada. O meu mérito foi o de ter entusiasmado um pequeno grupo de jovens doutorados no estrangeiro e com cabeça aberta, com vivência de Oxford, Imperial College, Columbia ou Rutgers. Mas também tive forte oposição de alguns catedráticos conservadores.

O meu colega questiona-me sobre o meu papel na minha universidade. Tem razão, porque pouco tem transparecido. Oficialmente, sou apenas um professor catedrático convidado da Universidade Lusófona. A minha influência é, teoricamente muito limitada, mas, por apreço do meu reitor, tenho sido solicitado para a adaptação a Bolonha da minha universidade. É questão que tenho gerido com grandes cuidados éticos. Verá dentro de pouco tempo que a ULusófona se colocará na fronteira de Bolonha. No entanto, tenho-lhes sonegado alguma inovação porque, por meu prazer intelectual, primeiro está a UMa. Espero que os meus colegas madeirenses anotem bem isto, que me está pôr bastantes problemas, até com reflexos na minha situação de vida e com recusa de aceitar solicitações da minha universidade financeiramente vantajosas mas geradoras de conflitos de interesses.

Outra nota ainda. Já estava à espera do argumento de autoridade de um departamento de ciências da educação, assumido como especialista em matérias de estratégia pedagógica. A meu ver, é um erro. Estamos a tratar de estratégia política de uma universidade. Todos são iguais nesta discussão, que é política e não científica. É como se os “politólogos” se invocassem maior autoridade para discutir a democracia, assunto em que qualquer cidadão tem o direito de dar opinião.

Finalmente, outra referência indirecta ao meu nome: “Aliás, a referência explícita a Newman, clérigo do século XIX, como inspirador de uma universidade que deve preparar para o século XXI, só se compreende se partirmos do princípio de que quem invoca Newman o faz por absoluta falta de inspirações mais actualizadas.”

Não me menospreze intelectualmente. Venha ver a minha biblioteca pessoal. Olhe que estou a tentar ser comedido e a não me deixar ir para a polémica!

J. Vasconcelos Costa


2 Responses to ““Em defesa da honra””  

  1. 1 juergenmillner

    Exmo. Professor Doutor João Vasconcelos Costa, Caro Colega,

    Obrigado, pelos seus estímulos que me levaram a reflectir nos três sentidos seguintes, que ordeno conforme o peso / a importância que lhes reconheço, começando pelo mais importante, e dos quais, isto é, dos três sentidos, aprofundarei, aqui, só o primeiro, um pouco, limitando-me nos restantes dois, a observações muito mais curtas, na maioria em forma de perguntas.

    1. O Colega escreve, no fim da sua intervenção, o seguinte, e passo a citar:

    “Já estava à espera do argumento de autoridade de um departamento de ciências de educação, assumido como especialista em matérias de estratégia pedagógica. A meu ver, é um erro. Estamos a tratar de estratégia política de uma universidade. Todos são iguais nesta discussão, que é política e não científica. É como se os “politólogos” se invocassem maior autoridade para discutir a democracia, assunto em que qualquer cidadão tem o direito de dar opinião.”

    Não levaria longe se eu especulasse, aqui, sobre os motivos que o levaram, porventura, a formular este parágrafo (entre os quais, isto é, entre os motivos, podem figurar tanto concepções ou linhas de argumentação, muito importantes para si, como ecos de uma irritação espontânea e momentânea, sentida ao escrever, não menos importantes e determinantes, às vezes).

    Mas tentarei dizer, muito resumidamente e de uma maneira exemplar (e, naturalmente, disposto a aprofundar, etc., caso o deseja), o que me leva, a mim, a dizer o seguinte:
    Este parágrafo seu, é, a meu ver, um exemplo onde detecto que, o que qualifiquei, no meu contributo sobre o Projecto Bolonha, e noutros comentários, de filosofia, teoria, etc., subjacente ao Projecto Bolonha, entra em contradição parcial com a expressão concreta da mesma.

    Vejo o mérito inegável destas suas palavras referidas, entre outras coisas, no facto de obrigar a relembrar certos princípios básicos democratas e / ou consequências ou pressupostos dos mesmos, como por exemplo:

    1º O direito de qualquer cidadão de expressar livremente a sua opinião sobre qualquer assunto.

    2º O facto de um académico ou cientista, só por ser académico e cientista, não já ser mais respeitável, sensato, ´bom´, etc., nas opções políticas que defende.

    3º O facto de, entre as disciplinas científicas / académicas, não haver uma hierarquia preestabilizada que garante que umas disciplinas sejam ´acima´das outras, e isso nem no que diz respeito aos saberes e conhecimentos que as disciplinas individuais procuram e constroiem nas suas mais ´próprias´ áreas de especialização.

    4º O facto de tudo o que o homem faz ou deixa de fazer, como cidadão comum ou como cientista, ter implicações ´políticas´e políticas que têm de ser levadas em consideração.

    Subscrevo, e na íntegra, tudo isso.
    E acrescento, em relação ao ponto 3º, em termos de uma convicção e fruto de experiêncais minhas:
    Pode acontecer que aprendo mais, sobre questões específicas das minhas disciplinas, isto é, o estudo das línguas, literaturas e culturas, lendo um livro ou artigo de um astrónomo, geólogo ou químico, já, mas náo só, porque a especialização das referidas áreas implica, como uma consequência eventual, que um determinado colega de uma área alheia à minha, chegue, pelas mais variadas vias e razões, a saber de uma publicação ou perspectiva nova e interessante das minhas áreas que me ´escapou´, até agora.

    E digo mais. Considero estes pontos todos, sem excepção, partes integrantes e importantes do que chamei de filosofia, teoria, etc., subjacente ao Projecto Bolonha, da UMa, elaborado integrando / levando em conta impulsos seus (que não sei bem quantificar nem qualificar, por, infelizmente, não ter lido nenhuma das suas respectivas publicações, até agora).

    Ora, indo à (minha) prova de que, o parágrafo citado seu, entra em contradição parcial com a (por mim) chamada filosofia, teoria, etc., limito-me a dizer o seguinte:
    Tive de fazer um esforço interpretativo, e de leitura entre as linhas, bastante grande, para detectar os 4 pontos da forma como os acabei de referir, no seu parágrafo.

    E acrescento só, sob a) e b), duas das maiores ambiguidades que detecto nas suas palavras, e, sob c), uma contra-convicção minha, num aspecto específico, que não me parece definitivamente refutada ou invalidada pelo seu statement: “A meu ver, é um erro.”

    a) O facto de qualquer cidadão se poder pronunciar sobre qualquer assunto, não significa que não haja diferenças em termos de competência para se pronunciar (facto esse, que, conforme a minha experiência, muitos cidadões comuns reconhecem, sem problema nenhum).

    b) Se houvesse a distinção rígida, quase absoluta, que o Colega parece estabelecer, neste parágrafo, entre estratégia política e estratégia pedagógica, no nosso Debate Bolonha e no próprio Projecto Bolonha, eu não teria, porventura, nunca participado no Debate Bolonha, porque o que me interessa é exactamente a conjugação dos dois aspectos, com um pendor (meu) forte para o lado pedagógico, sendo (eu) docente, com interesse pela política, e não membro de um parlamento, especializado em questões do ensino.

    c) Sou da opinião, (que julgo ser, até mais ver, contrária à sua), que, em qualquer universidade, o respectivo departamento de pedagogia ou ciências de educação detem, um lugar fulcral e quase algo como uma vantajem intrínseca em relação às outras áreas, e isto devido ao simples facto, que, se me considero d o c e n t e que e n s i n a línguas, literaturas e culturas, concedo, no meu entender automáticamente, que cerca de metade da minha actividade ´entra´ na ou diz respeito à área especializada da pedagogia, que considero, nos termos aludidos, por uma questão de principios, um dos meus ´parceiros´ e ´aliados´ naturais em quase todos os assuntos e problemas de carácter pedagógico, sem contudo esperar, que a pedagogia me forneça receitas para todas as minhas ´doenças´ de ensino que eu possa seguir de olhos fechados.

    Reabordarei este aspecto, num pequeno comentário às intervenções do DCE, da UMa, no âmbito do Debate Bolonha. E acrescento já aqui, neste contexto, sem querer falar por alguém que não precisa de substitutos que se pronunciam em nome dele, uma impressão que aspira questionar ou invalidar mais uma afirmação, implícita, sua:
    Não vejo, onde as intervenções dos membros do DCE, da UMa, até agora, sejam susceptíveis de serem lidas como afirmação de uma “autoridade” qualquer, e muito menos ainda no sentido de uma autoridade inquestionável em termos de competência pedagógica.

    2.
    Como já disse, desconheço, infelizmente, até agora, as suas publicações acerca da edução liberal, etc.
    Mesmo assim, ou melhor, por causa disso, atrevo-me, instigado pela releitura de outras intervenções, a colocar a seguinte questão (e correndo o risco de ignorar as suas argumentações que, talvez, respondam a tudo isto, perdão):
    Não terão certas críticas, que encontra o seu conceito favorito de educação liberal, também a ver, com as nuances ou marcas fortemente político-históricas que transporta o adjectivo liberal, pelo menos na Europa? Falando mais uma vez do meu ponto de vista pragmático específico, como austríaco: Eu reconheço algumas das (minhas) raízes no famoso liberalismo do seculo XIX, no sentido seguinte: Quase todas as ideologias e todos os partidos políticos, na Áustria actual, podem ser consideradas/os, segundo certos historiadores, mais ou menos, herdeiros e continuadores dos liberais do século XIX. Mas exactamente por essa razão também não me reconheço plenamente, hoje em dia, neste adjectivo (e muito menos caso se use sem aspas).
    Por outras alavras: Tomo a liberdade de perguntar ao Colega, se não lhe deu, também a si, para pensar o que comentaram os/as colegas do DCE, da UMa, em relação a esta questão, invocando não sem razão, na minha opinião, a falta de referências explícitas para a sua concepção chamada de liberal, após o certamente respeitável cardeal Newman, e para além da Harvard ?

    3. Haverá uma alternativa realista e desejável, para um discurso académico e social que inclui, permite e cultiva, como mais uma arte, e como uma forma de ´agressão simbólica e civilizada´, entre muitos outros meios e recursos, também a polémica?

    Mais uma vez obrigado pelos seus estímulos para reflectir.

    Com os meus melhores cumprimentos,

    Kurt Millner
    (DEAG)

  2. 2 juergenmillner

    (Nota técnica):

    Uma resposta do Professor Doutor Vasconcelos, do dia 17 de Decembro, em relação ao comentário anterior (de K.Millner), encontra-se, pelo menos no meu ecran, erradamente, ´intercalada´ entre comentários que figuram, no site, como “3 Responses to “Resposta ao contributo da CC do DCE (II)” (resposta essa formulada pelo colega Nuno Nunes).

    K.M.

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