Em resposta ao Prof. Lang

Caro Prof. Lang,

Certamente conhece um velho aforismo francês: “os bons espíritos encontram-se”. Apesar da nossa aparente divergência na nossa reunião, talvez não estejamos tão longe como se possa pensar. Desde logo, sinto-me feliz por lhe ter dado a conhecer a nova experiência pioneira da sua compatriota U. Konstanz.
Escreve o Prof. Lang (daqui em diante, todos os parágrafos entre aspas são do texto do Prof. Lang):

“As referidas qualificações chave lá são:
 Competências Sociais, Competências de Comunicação e Conhecimentos Básicos (Informática, Línguas, Direito etc.). Para quem domine o alemão (que não há esta informação em inglês), consultar:
http://www.uni-konstanz.de/studium/?cont=studienangebot&subcont=sq&lang=de
No entanto, há que notar que a implementação do ensino destas competências, e até a escolha do “blend”, é deixada aos departamentos, sem prejuízo de existir uma oferta lectiva centralizada em algumas áreas (informática, línguas, por exemplo).
Se for ver, caro Prof. JVC, o plano de estudos do B.A. em Ciências Políticas e Administrativas, disponível em
http://www.uni-konstanz.de/sektionen/polver/forms/pdf/B34_POSTO_PolitikVerwaltung.pdf, descobrirá que as referidas competências se encontram integradas nas próprias cadeiras do plano de estudos. Ou seja, no plano de estudos de 6 semestres do referido curso só aparecem cadeiras das áreas científicas pertinentes, mas nada que faça lembrar as qualificações chaves.”

O Prof. Lang coloca uma questão muito pertinente. A educação geral não deve ser um componente da educação especializada? De acordo, em princípio, com esse compromisso híbrido. A questão está em que a especialização dos professores reduziu-lhes muito a sua capacidade para contribuir para uma educação geral. Isto só poderá ser feito com muita conversa entre esses professores e uns seniores que tenham reflectido muito sobre a educação geral.

“Portanto, não percebo muito bem porquê é que as minhas aulas deviam educar os meus alunos, antes diria que deviam ensinar-lhes sobre a ciência. Na Alemanha já não se educa um aluno do ensino superior, ensina-se a ele. Aqui a mesma lei das bases do ensino superior fala muito em educar. A mim faz-me um bocadinho confusão o que isto significa e qual a diferença entre educar e ensinar.”

Caro Prof. Lang, pense bem. Não estamos a dizer exactamente o mesmo?

“Por conseguinte, não vejo muito motivo para exigir que os nossos alunos sejam melhor educados, até considerava um bocadinho indelicado chamar o ensino superior “educação superior”, pois a gente que não o frequenta poderá achar que está mal-educada.”

E está!

“Acho que o problema é outro: deve conseguir-se que os alunos se soltem mais. Não que chamem “treta” as nossas santas derivadas, seria sacrilégio, mas que realmente as vezes dizem o que pensam, sem receio da vingança do professor. Isto porque as aulas as vezes são como uma partida de póquer, em que toda gente mete um “poker face”, com a consequência que o professor nunca percebe se o aluno percebe ou não. Há que desaprender certos hábitos culturais que prejudicam o desenvolvimento.”

Mais uma vez, peço-lhe que reflicta: tudo o que tenho escrito não vai no sentido do que diz?

“Pois, já quase estou a começar a ter má consciência por ter plagiado a ideia do Grupo de Bolonha.”

Acho que sim! Não estamos tão distantes quanto a sua impetuosidade argumentativa, na nossa reunião, parecia dar a entender.

“Mas a sério, acho que a minha filosofia está bastante longe daquela que se reflecte no documento do Grupo de Bolonha: eu gostava de ver um licenciado em economia ou em gestão com mais competências científicas, mais maduro no seu conhecimento da teoria, e com mais “fluência” em aplicá-la no dia-a-dia. As reformas de Bolonha prejudicam gravemente esta tentativa, pois o licenciado do futuro terá muito provavelmente só 3 anos para lá chegar.”

Admito que o esquema 3+2, num modelo de educação liberal, dificilmente resultará numa formação útil para um emprego definido. Dirige-se é à empregabilidade geral. Aindahá poucos dias escrevi sobre isto em
http://jvcosta.planetaclix.pt/apontamentos.html#23112005
No entanto, é preciso não esquecer três coisas importantes no Projecto: aponta para o prosseguimento de estudos de mestrado como situação desejável; admite um primeiro ciclo de 4 anos, quando não possa haver mestrado na área; e, sendo um projecto piloto, tem de estar aberto a futuras correcções, como eventualmente, a duração dos graus, coisa que se pode fazer a todo o momento.

“A filosofia do Grupo de Bolonha parece mais ser conseguir afinal um “well educated gentleman” (and, hopefully, a lady with sense of humor). Mas será este um objectivo inerente à alma portuguesa ou madeirense? ”

Não há dúvida de que esta é uma pergunta importante. Infelizmente, creio que só uma elite está preparada para isto. A maioria pretende apenas o “canudo”, mas, por outro lado ou por isso mesmo, aceita tudo o que lhe dão, acriticamente. Estou certo de que ninguém vai fugir da UMa por causa do modelo. Pelo contrário, alguns, é certo que poucos a princípio, para aí irão do continente. Depois, com a afirmação da qualidade, aí irão ter muitos mais Erasmos.

Fico por aqui. O Prof. Lang coloca outras questões mais específicas, mas creio que já aqui tiveram resposta.

J. Vasconcelos Costa

Nota final - Entendo que intervir muito activamente na vossa discussão interna ultrapassa a minha função de consultor. Só o farei quando o meu nome for expressmente referido. Isto vale paraa outra contribuiçõ que entrarei hoje.


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