Queria aproveitar para fazer algumas observações mais ou menos pertinentes sobre as intervenções que se seguiam à minha.

O Ensino Liberal de Harvard na Universidade de Konstanz

Tinha sido referido várias vezes pelo Prof. João Vasconcelos Costa (JVC) a “inovação revolucionária do ensino liberal à Harvard” na Universidade de Konstanz no que diz respeito às qualificações chave (que noutros sítios são chamadas competências genericamente profissionalizantes). Então, fui lá ver com algum pormenor.

As referidas qualificações chave lá são:
Competências Sociais, Competências de Comunicação e Conhecimentos Básicos (Informática, Línguas, Direito etc.). Para quem domine o alemão (que não há esta informação em inglês), consultar:
http://www.uni-konstanz.de/studium/?cont=studienangebot&subcont=sq&lang=de

No entanto, há que notar que a implementação do ensino destas competências, e até a escolha do “blend”, é deixada aos departamentos, sem prejuízo de existir uma oferta lectiva centralizada em algumas áreas (informática, línguas, por exemplo).

Se for ver, caro Prof. JVC, o plano de estudos do B.A. em Ciências Políticas e Administrativas, disponível em
http://www.uni-konstanz.de/sektionen/polver/forms/pdf/B34_POSTO_PolitikVerwaltung.pdf, descobrirá que as referidas competências se encontram integradas nas próprias cadeiras do plano de estudos. Ou seja, no plano de estudos de 6 semestres do referido curso só aparecem cadeiras das áreas científicas pertinentes, mas nada que faça lembrar as qualificações chaves.

No B.Sc em Química da mesma universidade, só para ver outro exemplo, exige-se que os alunos adquiram qualificações correspondentes a 5 horas/semanais durante 1 semestre nas qualificações chave, e em 180 ECTS estas tem um peso de 3 ECTS. Além disso 2 horas/semanais durante 1 semestre em Direito, correspondentes a 1 ECTS. Consultar:
http://www.uni-konstanz.de/studium/pdf/pruefung/B70_POStO_BA_Chemie.pdf

Portanto, parece-me que durante o COPY+PASTE de Harvard para Konstanz é que se perdeu um bocadinho da gravitas da ideia original.

A Boa Educação

Acho os portugueses, e os meus alunos em particular, gente bem-educada. Na Alemanha pode acontecer que um aluno durante a aula de repente pergunta “E esta treta das segundas derivadas, como é que isto ajuda à classe trabalhadora e aos pobres”? Pois, temos menos papas na língua.

Portanto, não percebo muito bem porquê é que as minhas aulas deviam educar os meus alunos, antes diria que deviam ensinar-lhes sobre a ciência. Na Alemanha já não se educa um aluno do ensino superior, ensina-se a ele. Aqui a mesma lei das bases do ensino superior fala muito em educar. A mim faz-me um bocadinho confusão o que isto significa e qual a diferença entre educar e ensinar.

Por conseguinte, não vejo muito motivo para exigir que os nossos alunos sejam melhor educados, até considerava um bocadinho indelicado chamar o ensino superior “educação superior”, pois a gente que não o frequenta poderá achar que está mal-educada.

Acho que o problema é outro: deve conseguir-se que os alunos se soltem mais. Não que chamem “treta” as nossas santas derivadas, seria sacrilégio, mas que realmente as vezes dizem o que pensam, sem receio da vingança do professor. Isto porque as aulas as vezes são como uma partida de póquer, em que toda gente mete um “poker face”, com a consequência que o professor nunca percebe se o aluno percebe ou não. Há que desaprender certos hábitos culturais que prejudicam o desenvolvimento.

Diferentes mas iguais

Pois, já quase estou a começar a ter má consciência por ter plagiado a ideia do Grupo de Bolonha.

Mas a sério, acho que a minha filosofia está bastante longe daquela que se reflecte no documento do Grupo de Bolonha: eu gostava de ver um licenciado em economia ou em gestão com mais competências científicas, mais maduro no seu conhecimento da teoria, e com mais “fluência” em aplicá-la no dia-a-dia.

As reformas de Bolonha prejudicam gravemente esta tentativa, pois o licenciado do futuro terá muito provavelmente só 3 anos para lá chegar.

A filosofia do Grupo de Bolonha parece mais ser conseguir afinal um “well educated gentleman” (and, hopefully, a lady with sense of humor).

Mas será este um objectivo inerente à alma portuguesa ou madeirense? Não sei. O “liberalismo obrigatório”, que exige ao aluno que percorra algumas áreas que talvez não queira, faz me acreditar que também outros não estão muito convencidos disso.

Por outro lado, também não sei se o aluno quer assim tantas competências em economia ou gestão, mas antes o diploma nas mãos. Portanto, também eu terei de obrigá-lo a absorver matéria que talvez não aprecie. Mas se escolhe a área de economia ou gestão, é: take-it-or-leave-it.

Já que o Nuno tenha estipulado que a minha proposta para gestão e economia parece enquadrar-se na proposta do Grupo de Bolonha, queria aproveitar para esclarecer uns pontos em que estamos ainda muito longe e para fazer umas propostas adicionais:

Comunicação escrita e oral

Porquê não juntar o útil ao agradável e combinar o ensino em OpenOffice e LaTeX com a comunicação escrita? E como módulo em comunicação oral, contrata-se um grupo de teatro para os alunos apreenderem representar e soltarem-se um bocadinho.

Língua e cultura estrangeira

Não sei porque não é aceitável obrigar o aluno a aprender inglês - não por ser o idioma mais bonito do planeta, mas sim, por ser a língua de grande parte das ciências. Ajudava imensamente à economia e à gestão. Se o aluno quer outra então terá a escolha liberal.

Domínio das tecnologias de informação

Não bastam OpenOffice e LaTeX? Então quem precisa mais ou outra coisa é que faça a sua escolha liberal.

Competências Quantitativas

Se for à nível do Cálculo I para economia e gestão, todo bem. Não me importo que alunos de outras licenciaturas participam. Mas receio que, para não frustrar à partida aqueles que não querem saber da matemática, adapta-se o nível aos menos habilitados, facto que seria simplesmente mal. Portanto, o conceito do opting-out soa bem, mas na prática vai acontecer o que acabei de referir.

Pior ainda, se o nível estiver demasiado baixo, então haverá alguns que se vão apaixonar pela matemática e depois apanham o choque um ano mais tarde quando entrarem na primeira aula de matemática a sério. O mesmo vai acontecer em economia.

Portanto, insisto em insistir no original de Harvard, porque não quero perder demasiada coisa durante a operação do COPY+PASTE.

Conhecimentos Científicos Básicos

Na minha primeira intervenção disse que, a título pessoal, achava bem para gestão e economia. De todo, não é matéria indispensável. Portanto, não é uma condição sine qua non, o que quer dizer, que eu, embora goste da ideia, não a quero impor a outros que talvez não a queiram.

Raciocínio Ético e Deontológico

Mantenho integralmente o que tinha dito, embora a proposta insinua que o DGE, com “direito de propriedade” às ciências sociais, poderá ter papel importante nesta área. A mim, a título pessoal, não me entusiasma muito a ideia de intervir nesse campo, ainda numa altura demasiado cedo no currículo do aluno e sem as precedências (em teoria económica) necessárias.

O que quero dizer com isto todo?

Julgo que deve ser possível enquadrar aquelas competências transversais, com as quais concordo, num esquema que corresponda a 4 cadeiras semestrais, cadeiras estas dadas no primeiro ano. Portanto, deixa-se assim 5/6 da licenciatura (mais curta) para a área científica de escolha. É pouca coisa, mas posso ainda viver com isto no que diz respeito a um ensino coerente dentro da lógica do 3+2.

Antecipo, de todo, que nesta altura já há reuniões de alguns departamentos que receiam não poderem intervir de maneira adequada no primeiro ano, com a tendência de provavelmente nos próximos tempos surgirem mais propostas. Deverão entender das minhas palavras, que o DGE também terá de entrar neste jogo e tentar meter lá o “Economicismo” — a não ser que alguém de nós insista vivamente que nasceu para ensinar a outros Raciocínio Ético e Deontológico…

Seja como for, prevejo que a tendência vai ser de meter mais coisa, com a lamentável consequência que fica menos para gestão e economia. (Como cheguei a este ponto, descobri que a Comissão Científica do DCE (legitimamente) já abriu este “jogo”).

Teoricamente as coisas parecem muitas vezes simples, mas o diabo está no detalhe…

Como sempre: é a minha opinião pessoal.

Günther Lang, DGE


3 Responses to “Interpretações e Implementações da “Liberal Education””  

  1. 1 JVC

    Já estou habituado, para minha grande felicidade intelectual, a que pessoas inteligentes, numa discussão intelectualmente honesta, se aproximem em relação a posições aperaentemente inconciliáveis. Do Gunther Lang, no único encontroque tivemos, só retive duas impressões: que discordávamos, mas também que era uma pessoa muito inteligente, coisa que muito me fascina. Por agora, fica só esta nota. Este seu texto merece-me um debate muito interessante, amanhã ou depois.

  2. 2 JVC

    O comentário saiu fora de sítio, era propósito do texto do Günther Lang. ms este texto, bem estimulante, também me dará ocasião a um comentário, amanhã. Poupem~me, ao fim de semana descansa-se.

  3. 3 Günther Lang

    Caro Prof. João Vasconcelos Costa, por respeito pela sua maturidade científica vou conceder-lhe o merecido descanso durante o fim-de-semana, comprometendo-me a não fazer mais nenhum posting até segunda-feira. Bom fim-de-semana.

    Günther Lang, DGE

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