Falando em termos práticos

Nos últimos tempos, Kurt Millner tem-me enviado algumas mensagens interessantes. Também tem escrito no blogue “Que universidade?”, do meu amigo Manuel Matos. No essencial, se não erro, tem-me criticado por uma minha visão idealista da educação geral, dependente de um pseudo-conceito meu do “professor iluminado”. A meu ver, não há nisso nada de genético, elitista ou transcendente. Para mim, é apenas maturidade intelectual e cultural. Creio que, por me imaginar nas nuvens, acha muito mais realistas as propostas do DCE e de G. Lang. Para ver se nos entendemos, enviei-lhe hoje uma mensagem que reproduzo. É um pequeno exemplo do que proporei mais tarde como programa da área de educação geral.

Caro Kurt,

Apesar da minha falta de tempo, acho importante pôr no concreto e com um exemplo que lhe diz respeito a ideia da educação liberal. V. me dirá depois se isto é conseguido pelas propostas do DCE e do Lang, que V. parece apreciar muito. E também provavelmente meditará sobre se as minhas posições são idealistas ou se alicerçadas na capacidade pedagógica e cultural para conceber um programa de educação geral.

Haverá um conjunto de temas que fazem parte de um objectivo comum, a compreensão das civilizações. Vamos imaginar uma semana dedicada à cultura germânica. O tipo de aprendizagem será muito diversificado: palestras, leituras, audição de música gravada, pesquisa na net, discussões de grupo, apresentação de “comunicações” pelos alunos, etc.

Sem ser especialista, mas gabando-me de ser um dos “professores génios” que V. tanto critica, sugeria-lhe estes temas (garanto que não os fui buscar a parte nenhuma, saíram-me ao escrever isto!):

- Como é que os bárbaros germânicos conseguiram destronar a civilização romana?
- O direito e a ordem política romanos e góticos, o público e o privado
- As raízes germânicas do feudalismo
- Uma grande herança germânica - a ética luterana
- E, ligada ao luteranismo, uma das maiores conquistas da humanidade: Guttenberg e a imprensa
- Do racionalismo ao romantismo e ao realismo: Kant, Goethe, Schiller, Hegel, Nietzsche
- Wagner e a mitologia germânica
- O pangermanismo
- A revolução industrial alemã
- A Alemanha de hoje e a remissão do pecado
- A especificidade austríaca e a “belle vie”: Mozart, os Strauss, Belvedere, a “gemütlichkeit”

Em brincadeira, mas também a sério, desafio-o si, ao Lang e, já agora, ao DCE, a proporem um programa deste tipo, de uma semana, sobre a cultura ibérica. Se eu, português, posso, certamente com erros, esboçar um programa como o que indico, também certamente vocês, já bem familiarizados com Portugal, podem aceitar o meu desafio.

É que, parodiando e sem ofensa do adjectivo (como sabe, a frase é célebre), “that’s the culture, stupid!”

Abraço,

João


5 Responses to “Falando em termos práticos”  

  1. 1 juergenmillner

    A DECONSTRUÇÂO DE UM MITO

    No dia 8 ou 9 de Fevereiro, o blog Bolonha da UMa foi dado como terminado.
    E no portal da UMa já não aparece o respectivo convite, para leitura, comentários.
    Por isso deixei de comentar aspectos que me parecem merecer mais desenvolvimento do que encontraram até agora, aqui.
    E agradeço a quem me alertou em relação ao comentário de João Vasconcelos que o mesmo me enviou via e-mail, sem ter mencionado que colocou o seu comentário também no site Bolonha da UMa.

    Responderei, como já disse a João Vasconcelos Costa, o mais rápido possível, aceitando o desafio de formular um programa de educação geral que contempla a civiliazação ibérica, e comentando o exemplo esboçado por João Vasconcelos Costa, referente à cultura alemã. E responderei de uma maneira e com uma intenção mais séria do que humorística.

    Mas coloco hoje, aqui, em termos de introdução, um dos textos meus aos quais João Vasconcelos Costa alude, em cima, e que recorre também ao humor.
    O texto contem algumas observações que podem também servir de rectificação de certas ideias erradas que revejo no comentário de João Vasconcelos Costa. Nomeadamente no que diz respeito aos pontos onde no meu entender certas afirmações e tomadas de posição dele diferem da proposta do DCE da UMa e da proposta do Presidente de DEG da UMa, Günther Lang. Diferença essa que é, na minha opinião, uma de nível e qualidade argumentacional.

    1. O mito
    João Vasconcelos Costa escreve no seu artigo “Bolonha Revisitada”, do dia 29 de JAneiro de 2006, em http://jvcosta.planetaclix.pt/artigos/bolonha_revisitada.html), sob o título: O PB e os professores, o seguinte:

    “Creio que o paradigma de Bolonha é hoje bem conhecido, mas relembro-o, no essencial: formações de banda larga; primado à aquisição de competências em relação à informação; papel essencial da aprendizagem activa do estudante, em detrimento do seu papel passivo como receptor do ensino.

    Na minha experiência de muitas discussões, noto grande adesão a isto, mas interrogo-me sobre a sua eficácia real. Tenho da pedagogia superior uma noção muito pouco racional, porque estamos a lidar com adultos. Assisti a muitas aulas, a muitas apresentações científicas e creio que a sua eficácia é coisa que não se aprende (exagero), é uma dotação individual que tem muito a ver com os desafios culturais, o gosto pelo debate inteligente, o sentido do palco, a comunicabilidade, até algum histrionismo. Às vezes, acontece-me uma aula não sair bem, sei lá porquê. A minha mulher sabe bem como durmo mal nessa noite. Mas, passe a imodéstia, por alguma razão as minhas aulas facultativas estão sempre cheias. Um aluno disse-me há tempos uma coisa que podia ser pejorativa mas que me encantou: “as suas aulas são muito divertidas”.

    É por isto que julgo que o paradigma de Bolonha tem melhor concretização com um modelo de educação liberal no 1º ciclo [3], como aquele de que sou co-autor, da Universidade da Madeira [4]. Uma tese possível é de a facilitação das aprendizagens da educação geral se diluírem por todas as unidades curriculares (era bom adoptarmos esta designação, em vez de “disciplinas”). Parece-me uma ilusão. Prefiro, como no projecto da U. Madeira, uma área inicial de formação geral a cargo de professores com qualificações e vocação para este tipo particular de formação. É um questão de filosofia da educação, de cultura, de “espírito de educador”.”

    2. Com algum humor

    Julgo que deve haver mais do que uma avó madeirense, que não chegou, de pés descalços, à ´quarta classe da ralé´, e sabe mesmo assim conjugar, naturalmente e espontâneamente, várias competências complexas no seu dia a dia de formadora e ser humano.

    Por exemplo, quando insiste, na hora do almoço, repreendendo os netos, em boas maneiras na mesa e na fala.

    E quando, depois de ter lavado a louça, desperta e apoia o futuro actor (a actriz) / autor (a autora) de peças de teatro ou telenovelas nos mesmos, ao escolher e fabricar os disfarces deles que os Vascos da Gama, Zorros e as Abelinhas oe Princesas exibirão nos próximos dias em cortejos de carnaval pela Madeira fora, não esquecendo o lado psicológico e social que poderá exigir tanto o apoio para alguns mais tímidos ou envergonhados, como a domesticação das ambições napoleónicas de outros.

    E as mesmas professoras-moralistas-linguistas-artistas-psicólogas-sociólogas não terão grandes dificuldades em resolver o problema que surge, quando ficaram, um dia, com a ideia que algum cozido delas não lhes tenha saído às mil maravilhas, sem nenhum familiar se ter pronunciado abertamente sobre o assunto.

    Porque, das duas uma:

    Ou perguntarão às vítimas discretas, e assim obterão porventura algumas luzes.

    Ou submeterão o caso à uma amiga vizinha, não invejosa. Que ajudará talvez em dois minutos, metendo o dedo na ferida da preparação, do procedimento, dos ingredientes ou das condições atmosféricas maléficas eventualmente em causa.

    Faltava só, uma única avó, que podia intervir neste contexto, deixar de usar a expressão catastróficamente antiguada e terre à terre:

    ´Sei que não sei quase nada sobre muita coisa, por exemplo sobre os grandes filósofos do passado, e a sabedoria e a modestia dos mesmos´.

    Porque apanhou algures uma fórmula nova para transmitir essa ideia.

    E já estaria mais uma pessoa, sem saber, numa posição de clara superioridade em relação à alguém (que chamo aqui de A. e) que mitifica os professores universitários, encerregados de realizar BOLOGNA em termos pedagógicos, e que se automitifica a si próprio, afirmando que não sabe porquê uma ou outra aula lhe correu mal.
    E a mesma pessoa estaria, e também sem saber, num pé de igualdade com alguém (que chamo aqui de B. e) que confirma e deconstroi o mito da superioridade de certos intelectuais, exibido por A., de outro ponto de vista complementar.

    Pois com base numa pequena reciclagem do vocabulário de uma só avó madeirense, o próximo dedo de conversa intercultural transdisciplinar entre uma Sra. Dona Clotilde e uma Sra. Dona Teresa na Rua dos Aranhas 55, no Funchal, podia decorrer assim:

    - Ô Dona Clotilde, ouça só o que me contou ontem a vizinha do quarto A, que é casada com um senhor estrangeiro. Lá, na terra do senhor, que é austríaco ou australiano, também existem mal assadas, mas não levam abóbora, e chamam-se ratos fritos.

    - Ora essa. Confesso que tinha pouca reflexão sobre isso, Dona Teresa.

    3) A sério

    O meu distanciamento indirecto de determinadas tomadas de posição de JVC, em cima, implica, em termos sóbrios, uma convicção quase axiomática minha, que ainda não vi invalidada em termos argumentacionais no âmbito do Debate Bolonha na UMa, nem noutros sítios onde a proferi:

    A proposta do DCE da UMa para a aplicação de BOLOGNA não me convida em nenhum ponto a um distanciamento racional ou parodístico, no que diz respeito às recomendações e perspectivas pedagógicas claras, explícitas e implícitas para a aplicação de Bologna, expressas na mesma.

    Ela não me convida a um estilo argumentacional manifesto excessivamente poético, rapsódico, exímio em correr o risco de se imunizar a si próprio contra objecções racionais, sejam elas baseiadas em argumentos e afirmações históricas, sejam elas sistemáticas.

    Não me convida a uma atitude argumentacional que
    … adia o debate aberto sobre assuntos questionados,
    … aborda questões novas, antes de as antigas terem sido debatidas ou resolvidas,
    … elogia manifestamente e calorosamente certas qualidades ou competências gerais do interlocutor, que se negam raramente a alguém, em termos de princípios, sem abordar as questões que o tal interlocutor coloca, e
    … recorre a expressões emocionais de desprezo intelectual global, camufladas com uma certa elegância.

    Não me convida à verbosidade innovadora em meros termos cosméticos.

    Nâo me convida a um pessimismo pedagógico, pois não faz pouco dos muitos que sabem que têm de aprender ainda muito para ensinar muito melhor.

    Não convida à ingenuidade, arrogância ou deificação de alguns eleitos que acham que já não precisam de aprender quase nada porque nasceram já devidamente qualificados.

    Mas convida a todos a contribuir no sentido de uma reflexão constante sobre as formas e conteúdos de uma requalificação constante e abrangente em termos pedagógicos.
    Reflexão essa, onde contará e será enriquecedor certamente tanto o contributo de quem já sabe algo melhor do que alguns outros, como a ânsiedade de aprender e fazer perguntas pertinentes de um novato que começa de algum zero sempre relativo.
    E muito mais relativo numa área como a pedagogia.
    Pois processos de aprendizagem e ensino são o que menos falta em cada dia e cada hora da vida humana.
    De modo que não exagerará muito quem diz: entre todas as áreas científicas e do saber é, sob regimes democratas, uma das componentes rainhas omnipresentes em todas as outras, a pedagogia. Área essa que por essa mesma razão deve ser trabalhada constantemente por todos. E muito menos do que outras pode ser deixada ao cuidado, critério e poder definicional exclusivo de alguns que confessam abertamente que têm

    “da pedagogia superior uma noção muito pouco racional, porque estamos a lidar com adultos.”.

    Para citar mais uma vez o mitificador João Vasconcelos Costa, conforme o ponto 1), em cima, conforme http://jvcosta.planetaclix.pt/artigos/bolonha_revisitada.html .
    Num momento de (formulação de um) raciocínio dele que pode ter o mérito da maior sinceridade subjectiva.
    Mas não deixou de me surpreender sob vários aspectos.
    Como poucas afirmações de intelectuais e académicos me surpreenderam que vi assumir posições no sentido de um orgulhosamente só, unido a brandes costumes. Até eu ter recebido ontem o esboço de um programa de educação geral elaborado por João Vasconcelos Costa, para uma semana de cultura alemã, com os respectivos comentários, inclusive o desafio de formular por minha parte um exemplo análogo referente à civilização ibérica.

    Haverá porventura sempre de novo contextos onde alguns dão temporáriamente a impressão que o momento seja propício para uma pedagogia que não segue, à maneira dela, em algo e com limites, o princípio freudiano que diz ser necesário levar as penumbras do psíquico anónimo à alguma clareza em termos de identidade consciente individual e racional.
    Mas haverá provavelmente também sempre algum público interessado e céptico à qual isso proporcionará mais um processo inesperado de ensino e aprendizagem.
    E chegará, porventura, mais dia, menos dia, alguma hora de outra metade da verdade inesperada, também para àqueles que apostaram aparentemente durante algum tempo só numa.

    Tudo o que acabei de referir, acerca das qualidades que reconheço à proposta do DCE para a aplicação de BOLOGA, vale, cum grano salis, também para as recomendações e perspectivas pedagógicas da proposta de Günther Lang, Presidente do Departamento de Economia e Gestão da UMa, para a transição da UMa para Bologna.
    Perspectivas essas que se distinguem, no meu entender, das do DCE em grande parte só por serem mais implícitas.
    O que tem a ver com uma intenção um pouco diferente que seguiu G. Lang com a sua proposta, tendo abdicado mais de formular linhais muito gerais, e tendo insistido mais num procedimento diferente através do qual se podia chegar a linhais gerais mais consensuais ou diferenciadas e respectivas concretizações.
    Mas quem conhece as duas propostas, sabe, pelo menos no meu entender, que também essa diferença acabada de referir entre as mesmas, é uma diferença muito mais relativa do que absoluta.

    Nota final

    As mal assadas austríacas, referidas sob 2., têm realmente o nome de ratos fritos: ´gebackene Mäuse´.
    As melhores que comi na Madeira até agora, foram feitas por uma Senhora vizinha amiga generosa, que nunca confundiu a Áustria com a Austrália.
    As primeiras que comi e não esqueci, foram feitas pela minha avó materna.
    Viva ela, que morreu em 1962.
    Vivam as avós e as demais pessoas exímias em boa vontade, sensibilidade e bom senso, seja onde for.
    E viva a subjectivade na medida certa, também nas ciências hard e soft.

    Agradecimentos

    A João Vasconcelos Costa pela recomendação da pista do histrionismo na pedagogia.
    A quem usou num comentário externo ao Projecto Bolonha da UMa um modo de dizer que me causou alguma surpresa e algum sorriso quando o detectei.

    Kurt Millner
    DEAG da UMa

  1. 1 ycyborecajos
  2. 2 igucosohuju
  3. 3 Alexander4
  4. 4 Alexander7


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