Desiludam-se !

Desiludam-se !

• Não é por se dar o mesmo nome a coisas distintas que elas passam a ser iguais (ou a ter conteúdos similares).
• Não é por se chamar licenciatura ao futuro primeiro ciclo de 3 anos que ele vai passar a dar as mesmas competêcias científicas e técnicas que as actuais licenciaturas de 4 e 5 anos (conforme os cursos).
• Teria sido preferível (se não houvesse outras motivações) que em vez de se chamar licenciado, mestre e doutorado, se chamasse diplomado do 1º ciclo, diplomado do 2º ciclo e doutorado (uma vez que, em relação ao terceiro ciclo – o doutoramento - não ocorrem diferenças significativas, no que respeita à sua duração e tipo de exigência, face à situação actual).
• Mas, se havia algum título actual que correspondesse mais ou menos a um ciclo de estudos de 3 anos seria o de bacharelato.
O título de bacharelato está actualmente associado ao ensino politécnico, embora no meu tempo (reforma do Professor Veiga Simão) tal não fosse o caso.
O que distingue o ensino politécnico do ensino universitário não é simplesmente o ser ou não profissionalizante, e só indirectamente é o número de anos dos seus ciclos de estudos. Se entendermos por profissionalizante o se tratar de um curso dirigido para uma profissão específica, há cursos universitários que são profissionalizantes (Mediciana, Professor de …, etc.) e outros que o não são (Matemática, Física, Filosofia, etc.)
O que distingue o ensino politécnico do ensino universitário é a filosofia subjacente, que está ligada ao facto de se pretender que o primeiro seja, em tempo curto, directamente profissionalizante (com as vantagens e inconvenientes subjacentes). Assim, o ensino politécnico tem de rapidamente ensinar as técnicas e tecnologias utilizadas numa dada área do mercado de trabalho. Como estas (pelo menos em algumas áreas) mudam muito rapidamente, subentende-se que o profissional assim formado deverá ciclicamente frequentar novos cursos de formação tecnológica e que o empregador deverá apoiar esse ensino ao longo da vida (em vez de se “descartar” do profissional que fica desactualizado).
E quem é formado no ensino universitário também não tem de continuar a aprender ao longo da vida? Tem, mas deverá estar mais preparado para aprender por si (independentemente de poder/dever continuar a frequentar novos ciclos de estudos formais).
Pensemos, por exemplo, na área da Engenharia, que é fortemente tecnológica. No ensino universitário a estratégia é a de nos primeiros anos dar as bases científicas duradouras, que lhes dão a capacidade de abstracção e os fundamentos (que são relativamente estáveis, não dependendo fortemente da evolução tecnológica), e de ensinar muito mais as metodologias e métodos, e só depois, nos últimos anos, leccionar os domínios mais aplicados e as tecnologias em utilização no momento. Como as bases científicas perduram, o aluno ficará não só mais preparado para se adaptar e aprender por si alterações das tecnologias, como (aspecto particularmente importante) trabalhar ao nível da concepção.
Vejamos um exemplo, de um dos meus domínios de ensino. Para ensinar a programar, os alunos têm de conhecer minimamente alguma linguagem de programação, pois é essencial que experimentem (para se saber realmente e gostar do que se aprende, não basta aprender como se faz: é preciso fazer!) Para aprender a programar, é preciso programar (como para aprender a demonstrar, é preciso fazer demonstrações). Mas, para aprender a programar, de um forma sólida, não se parte do nada e se “vai tentando”, nem é preciso conhecer tudo sobre a linguagem de programação utilizada (no 1º ano não se pretende formar um expert na linguagem de programação utilizada, que pode já não estar em uso quando o aluno acabar o seu curso). O que o aluno tem de aprender são os métodos que estão por detrás dos vários paradigmas da programação: por exemplo, as formas de construção de um programa recursivo, ou as ideias simples que estão subjacentes à construção de um comando repetitivo (tipo “While”), as quais perdurarão apesar das mudanças das linguagens de programação, pois no essencial não dependem dos pormenores que a caracterizam.
• Mas tudo isto para quê?
Para dizer que a filosofia subjacente ao ensino universitário, por exigir uma base científica mais sólida e alargada, sem dispensar a parte das aplicações, é (na minha opinião) mais duradoura, mas exige mais tempo (como se costuma dizer, pelo menos em Lisboa, “não se pode pôr o Rossio na Rua da Betesga”).
Assim, por exemplo, não se forma um Engenheiro em 3 anos ! Não nos iludamos !
• Mas, no fim do futuro primeiro ciclo um estudante não poderá ingressar já no mercado de trabalho?
Sim, como já hoje pode (já hoje vários estudantes começam a trabalhar antes de acabar o curso)!
E não vejo mal que, se se perspectiva que tal é desejável, se procure incutir mais cedo nos estudantes algumas das chamadas soft skills (competências transversais), e não pretendo discutir aqui qual a melhor forma de o fazer.
Continuo, no entanto, a considerar que para formar um Engenheiro, ou um técnico competente na área das Ciências, serão precisos os dois ciclos. E, apesar das opiniões em contrário de colegas universitários e empresários de sucesso, que muito respeito, considero que há vantagens em tirar os dois ciclos de seguida (pelo menos nestas áreas do saber), pois na minha opinião é o segundo ciclo que prepara mais profissionalmente e para as aplicações.
Após os dois ciclos, um aluno estará devidamente preparado para ir para o mercado de trabalho, para aprender os métodos e tecnologias seguidos num dado sector de actividade ou numa empresa específica. E, mais tarde (ou, se pretender, de seguida) poderá prosseguir os seus estudos, fazendo um doutoramento, ou um curso de pós-graduação na mesma área, ou um segundo ciclo noutra área (por exemplo, um engenheiro tirar um segunda formação em Gestão, como já hoje acontece, do mesmo modo que tenho um colega doutorado em Ciência da Computação que está a tirar outro doutoramento, agora em Filosofia).
• Mas não há vantagens nesta separação da formação inicial em dois ciclos ?
Com certeza que há algumas, e desde logo a facilidade de mobilidade, tão importante no mundo de hoje em que, mal ou bem, um aluno tem de estar preparado para procurar trabalho em qualquer ponto do planeta.
• Mas devem ir todos os alunos que o queiram para o segundo ciclo, ou só os de qualidade?
Não vejo razão para que se possa dizer que um aluno que tira um primeiro ciclo não tem qualidade! Com certeza que não é ideia passar a facilitar e a exigir menos no primeiro ciclo do que se exige agora nos primeiros anos. E a experiência diz que, em geral, quem chega ao terceiro ano completa actualmente o seu curso, não só por que já adquiriu os hábitos e métodos de trabalho essenciais, como por que é nessa altura que passa das disciplinas básicas, que são ferramentas, para as disciplinas de aplicação, normalmente muito mais apelativas.
• Mas porquê então esta lengalenga toda? Vai para o segundo ciclo quem quer!
Temo que não seja bem assim, e é essa a minha grande preocupação!
Vai para o segundo ciclo quem quer, se tiver capacidades financeiras para tal!
Ora, parece que o Governo se prepara para financiar, como hoje, os (ou uma grande parte dos) custos dos estudos do primeiro ciclo, mas só financiar os custos dos segundos ciclos de alguns cursos (e não se sabe se, mesmo nesses casos, atribuirá Bolsas de Acção Social para os estudantes do segundo ciclo).
Ora, apesar de o segundo ciclo se passar a chamar mestrado, ele, no essencial, não é mais do que as actuais licenciaturas, que correspondem à formação inicial que até agora era suportada pelo Estado.
• E, se o Estado não financiar (ainda que parcialmente) os segundo ciclos, a realidade é que muitos dos estudantes, nomeadamente da Região Autónoma da Madeira (julgo que a UMa é, percentualmente, a universidade com mais bolseiros), não terão possibilidades de concluir a sua formação inicial!
E, se não houver candidatos em número suficiente, a Universidade da Madeira provavelmente também não poderá oferecer segundos ciclos em muitas áreas!
Será que isto é bom para a UMa, para os estudantes Madeirenses e para a Região Autónoma da Madeira?
• Se o Estado não tem dinheiro para financiar os estudos, mais vale que o diga, do que justificar isso com uma mera cosmética de chamar mestrados ao futuro segundo ciclo, como se eles não se tratassem ainda de formação inicial!
Mas como espero que Portugal não fique eternamente em crise financeira, e esta medida só tem efeitos daqui a cerca de 5 anos, acredito que ainda há possibilidade de conseguir que o Governo subsidie (ainda que parcialmente) os custos dos estudos de segundo ciclo.
Julgo que, em grande medida, tal dependerá muito de nós (Universidades, Professores e Estudantes, que são, em última análise, os mais interessados, e outras Instituições, inclusive do Poder) conseguirmos fazer valer ao Governo a importância desta medida, seja em termos sociais seja para o desenvolvimento da Região e do País.
São estas as minhas grandes preocupações actuais, que são independentes de se adoptar ou não o modelo do ensino liberal.
Saudações académicas.
UMa, 27 de Janeiro de 2006
José Carmo
(Professor na Universidade da Madeira)


3 Responses to “Desiludam-se !”  

  1. 1 JVC

    Se bem entendi este artigo, que levanta questões pertinentes, não julgo que ele esteja em oposição ao projecto da UMa. O projecto discute bastante, a meu ver a questão da empregabilidade, que também me tem preocupado e sobre a qual estou a escrever um artigo de fundo.

    Quanto ao financiamento do mestrado, sugiro a leitura do meu apontamento O financimento do mestrado.

    Só não estou de acordo com uma coisa menor, o título. Talvez eu venha a ter desilusões com a aplicação do PB, em geral. Isto não obsta a que cada um dê o melhor. O valor do exemplo (mais ainda se for em termos competitivos) é muito grande. Eu sou um apoiante de Bolonha, embora crítico de alguns aspectos. Isto exige-me uma defesa racional e exigente do que apoio, para não correr o risco de ver as minhas críticas serem identicadas com a oposição primária ao PB que ainda se vê por cá.

  2. 2 juergenmillner

    Desiludi-me. Obrigado. Se tivesse pensado mais cedo no que a intervenção do Professor Carmo me deu para ver, no que diz respeito ao financiamento do ensino superior, não teria escrito quase nada do que escrevi, como fantasista, sobre Bolonha até agora.
    Não sei se os estudantes da UMa que fizeram o panfleto
    MEL, onde referem que a Constituição de Portugal garante o direito ao ensino público e de qualidade tendencialmente gartuito,conhecem a intervenção do Professor Carmo. Mas acho que se podem rever numa das perspectivas e das “grandes preocupações actuais, que são independentes de se adoptar ou não o modelo do ensino liberal”, conforme o texto do Professor Carmo.

    Kurt Millner
    (DEAG)

  3. 3 nelson faria

    Eu sou um ex-estudante de Eng. Informatica na UMa. actualmente estou a estudar no Reino Unido onde o sistema e de 3 anos para obter um grau.
    Eu noto uma enorme diferenca do tipo de ensino entre a UMa e a Universidade onde estou.
    Umas das principais diferencas e a propria atitude dos Professores onde a grande maioria tem um elevado grau de experiencia no Mundo Profissional e que falam com conhecimento de causa (em contraste com a UMa…).
    O processo de Bolonha nao vai resolver todos os males do Sistema De Ensino Superior. A resulucao passa sim pela flexibilizacao do sistema. Em comparaco com o Reino Unido as pessoas podem obter um grau de varias maneiras. Nao bloqueia o aluno por ter feito uma opcao mais profissional (BTEC, HND ou BSc in Engineering). As universidades levam em conta as competencias que obteve durante a sua vida profissional para entrar num Curso ( por exemplo uma pessoa que tirou um HND muitas vezes so fazem o 3 ano da Univeridade e obtem o titulo de BEng(Hon))
    Infelizmente estou com pressa (tenho aula) e nao posso acabar o meu comentario neste momento.

    Nelson Faria

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