Risco e Habitus

Em síntese, o que tenho captado sobre o debate da Proposta que tem vindo a ter lugar, neste espaço bloguista e em conversas mais informais, interpreto-o em torno de duas palavras: risco e habitus.

Risco, no sentido de que as ameaças que no entender de alguns se vislumbram para os alunos, enquanto grupo alvo do Processo de Bolonha, surtirão resultados particularmente graves através da implementação da Proposta do GB/UMa.

Habitus, porque na proposta do GB/ UMa colocada a debate público existem, segundo algumas opiniões aspectos de natureza estrutural não compatíveis com práticas, tendências e estabilidades adquiridas no sistema de ensino superior que tem prevalecido no país.

 

Alguns dos riscos apresentados como mais ameaçadores para os alunos da UMa, consistem no essencial no seguinte:

  • desqualificação de competências, decorrentes do facto de na fórmula 3+2 se observar significativa redução da formação específica relativa à respectiva área de conhecimento no primeiro ciclo;
  • agravamento do risco anterior, decorrente do agrupamento da formação em duas grandes áreas – Ciências e Tecnologias e Artes e Humanidades;
  • os dois factores anteriores limitam as competências desejáveis para a frequência do segundo ciclo;
  • uma oferta de formação com as características descritas desvaloriza a posição dos diplomados/graduados da UMA no mercado de trabalho.

 

Em relação a estes riscos que poderão advir da implementação da Proposta, eles não serão certamente mais graves do que aqueles que todos sabemos existirem desde há anos, com outros contornos, é certo, mas que continuarão a agravar-se com o passar do tempo se nada for feito com sentido e alcance estrutural. As limitações, disfuncionalidades e os constrangimentos do modelo que prevalece estão descritas e elencados em inúmeros trabalhos de especialidade, contra os quais não conheço argumentação contraditória consistente. Eventual ignorância minha!

 

Mas será que os riscos atrás mencionados serão reais e de importância crucial?

No nosso entender bem mais graves serão - isso sim, outros riscos.

Manifestemos então quais são os riscos que me aparecem como realmente ameaçadores para os alunos e o futuro da UMa.

 

  • o primeiro que evocamos é o do imobilismo, que tem prevalecido na universidade em Portugal e que a UMa tem de saber contrariar, como forma de adquirir vantagem ou pelo menos reduzir algumas das desvantagens num mercado que deixou de ser pré-competitivo na última década do século passado para se tornar cada vez mais competitivo e sem fronteiras. O processo e o debate lançados com a Proposta são no meu ponto de vista um inquestionável contributo contra o imobilismo;

ü      a tendência para o perfeccionismo que sendo compreensível em certos momentos e em determinadas práticas, não é certamente um facilitador de acção, de que tanto necessitamos. Debater com sentido crítico é sem dúvida indispensável ao aperfeiçoamento da Proposta, que seguramente não deixará de acolher recomendações/sugestões que têm vindo a ser prestadas através de diferentes vias e iniciativas . Não se pode é pretender que uma proposta de incidência global comporte à partida visão estratégica, soluções operacionais e definitivas. A Proposta, sendo um ponto de partida num processo de mudança requer o escrutínio e o debate de questões centradas na Urgência de Mudar? Mudar o Quê? Com Quem? Com que Visão? Como Comunicar a Visão Cooptada? O Poder de Agir e o Envolvimento? Que Apostar nos Sucessos Tangíveis a Curto Prazo;

  • o risco do uniformismo, entendível como a adopção/cópia de soluções que se revelam bem sucedidas noutras realidades contém em si o perigo de ignorar particularidades e contextos. Não podemos porém deixar de conhecer e fazer o esforço de absorver as boas práticas, adaptando-as à realidade que queremos modificar, perante o contexto em que agimos. Parece-me que a Proposta faz este esforço, indica caminhos e detem coerência;
  • submeter a estratégia de uma proposta ao escrutínio de aspectos de natureza predominantemente táctica conduz inexoravelmente ao risco do taticismo. A Proposta não me parece que incorra neste risco, que conduz no geral ao desenvolvimento de soluções de alcance limitado e portadoras de handicaps para o seu sucesso no lmédio longo prazos;
  • por último, o pendor para o formalismo que predomina em muitas das nossas práticas e orienta  intervenções não é, a meu ver, o melhor aliado de um debate sadio e descomplexado que importa continuar a promover.

 

Para além destes riscos de incidência global existem outros de sentido operacional, dos quais saliento a titulo ilustrativo apenas dois:

 

  • o ECTS – que sendo sobretudo uma componente de natureza instrumental da construção do Espaço Europeu de Ensino Superior, incorpora de forma iniludível o sentido real da mudança a promover na organização e na formatação da oferta de ensino. Em concreto a passagem de um ensino fundado na transmissão de conhecimentos a um ensino centrado na criação de competências não é uma simples operação de aritmética. Porém, também pode ser, entre outras coisas, um instrumento facilitador de mobilidade, de promoção da cooperação e trabalho em rede, de cujas formas e meios de aplicação e utilização depende a minimização de riscos para os estudantes, quer no acesso ao mercado de trabalho, quer no que concerne à continuação e rentabilização de estudos de segundo ciclo. Não conhecendo no detalhe o trabalho e estudo desenvolvidos pelo GB/UMa, quer-me parecer que no plano operacional a introdução do ECTS requer mais e cuidada atenção do que a que supõe uma primeira abordagem e constitui um ponto fulcral para o sucesso do processo;
  • o Suplemento ao Diploma, é para o estudante um outro factor de relevância crucial, no que se reporta ao mercado de trabalho e para efeitos de prosseguimento de estudos. A revisão das práticas que têm predominado em termos de avaliação e criação de sistemas de informação de alguma complexidade operativa - face aos procedimentos actuais de certificação, irão certamente requerer muito trabalho e cooperação a nível interno.

 

Estes dois casos de aplicação concreta a que haverá que acrescentar muitos outros nos mais diversos planos da organização, funcionamento, procedimentos e comportamentos, constituirão desafios cruciais ao seu sucesso futuro.

 

A Proposta não é mais que um começo, sem fim datado.

 

Quanto ao habitus os argumentos sendo mais difusos, quer-me parecer que a sua expressão e sentido poderão ser eventualmente interpretados no plano das inquietudes que por norma são geradas pelos processos de mudança, mas também através de uma perspectiva de natureza tático – formal, sendo que neste caso o seu real sentido estará bem para além dos riscos reais inerentes ao conteúdo da proposta e a admissíveis preocupações do objecto real do Processo de Bolonha; os estudantes, como atrás foi referido.

 

 Dito isto anoto o seguinte:

  • não me apercebi até agora de nenhuma intervenção em defesa da manutenção do status quo, pelo que presumo que os contributos prestados para a criação de um modelo que contribua para a superação dos desajustamentos existentes, serão todos eles portadores de soluções pontualmente inovadoras.
  • algumas intervenções e opiniões argumentam que na Proposta colocada a debate público existem aspectos de natureza estrutural que colocam os alunos da UMa, em risco, no essencial porque o modelo proposto é um modelo portador de inovação de ruptura.
  • o que irão fazer outras universidades mais fortes e mais bem posicionadas no ranking nacional? Esperar para ver seria uma atitude que no entender de outros se apresentaria como mais sensata e protegeria a UMa dos riscos de se lançar num projecto excessivamente inovador, pouco comparável às tradições de organização e oferta de formação que entre nós têm historicamente prevalecido

 

Qualquer analogia entre a actividade de ensino e a actividade empresarial, em que as inovações de ruptura são as que mais estimulam a procura e o crescimento do produto, corre o risco de ser qualificada de insensata.

 Será certo admitir que um curso não é um produto determinado pela lógica de mercado!

Aceitar-se-á porém reflectir sobre a incontornável realidade da competitividade que em poucos anos penetrou com sentido irreversível o mercado da oferta de formação no ensino superior? A concorrência já faz o seu caminho e irá acelerar de forma imparável!

Sobre estes factos não tenho ilusões.

Não se pode negar em 2006 que o simples facto da oferta de vagas de alunos no ensino superior ter passado a ser superior á procura - o que se faz sentir de forma crescente e continuada desde 2000, tem sido um factor gerador de mudanças, algumas delas em ruptura com práticas imobilistas de décadas, porém erráticas, no essencial.

 

Para finalizar, parece-me que é na antecipação que está o ganho e ensina-nos a experiência que a universidade portuguesa é no geral pouco propensa à acção por antecipação.

Contendo um sentido prospectivo e apostando na antecipação, parece-me serem esses os trunfos fortes da Proposta do GB/UMa.

 

 

Breves notas finais:

 

  1. O risco é inevitável, minimizá-lo é indispensável, a paralisia é insuportável.
  2. As propostas e as práticas baseadas no Ethos devem saber através do seu alcance sobrepor-se ás intervenções que emergem do habitus.
  3. Estamos no começo de um processo de rupturas. Adiá-las é retrocesso.
  4. Debatemos uma proposta que tem a ver com o Processo de Bolonha dos alunos. Começam a surgir ideias de criar um Processo de Bolonha para os docentes.
  5. Hoje, 22 de Janeiro de 2006, a Universidade da Madeira terá dado mais um passo para conquistar capital de esperança para o seu futuro, pela conferência/debate que promoveu no Auditório do Colégio.

 

 

 

Carlos Lencastre


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