Teorias da conspiração…

Por ser o responsável directo pelo projecto de Bolonha da UMa sinto-me na obrigação de esclarecer algumas teorias, mais ou menos conspirativas, que têm circulado neste blogue e que de tanto serem repetidas correm o risco de serem tomadas por verdadeiras.

Perdoem-me os leitores externos à UMa (que são cada vez mais o que muito nos apraz registar) mas este fórum de discussão é também “interno” e uma forma de nos abrirmos ao meio envolvente, nem que seja numa contribuição para que melhor se compreenda o processo de governo e de tomada de decisão numa instituição tão singular como é a Universidade.

Permitam-me também alguma ironia, porque os blogues são essencialmente espaços de discussão informais onde é permitida alguma liberdade na expressão.

A teoria da aprovação prévia:
Esta é provavelmente a teoria mais antiga, sugere uma tentativa de aprovar apressadamente um projecto de reestruturação da UMa, não permitindo tempo de reacção a quem pretendia discutir ou propor alternativas.
Estive a consultar os meus registos de email. Já não falando do programa de acção do Sr. Reitor (que foi amplamente divulgado, discutido e sufragado), as primeiras discussões internas no âmbito do Projecto Ensino/Aprendizagem começaram com a distribuição interna dos relatórios das comissões sectoriais encomendados pela então ministra Profª. Graça Carvalho.
O Grupo de Bolonha foi constituído em grande parte a partir de pessoas que me foram manifestando interesse pela discussão que o MCTES na altura promoveu. Os convites que efectuei às pessoas que constituem o GB foram feitos no final de 2004 e as primeiras reuniões formais foram no início de 2005.
Passaram 12 meses, durante os quais só quem estava distraído é que poderia ignorar que o GB existia e o que estava a fazer (aliás as primeiras teorias da conspiração remontam a essas alturas). Era tempo mais do que suficiente para terem aparecido propostas alternativas, ou para se terem levantado todo o tipo de dúvidas sobre a legitimidade do processo (um dia escreverei sobre o GB e como julgo que é um exemplo paradigmático de como o modelo de governação das Universidades pode ser melhorado).
Mas admitamos que a teoria tem cabimento. O documento foi distribuído em finais de Outubro, discutido e aprovado em Conselho da Universidade no início de Novembro. Desde essa altura o Sr. Reitor decidiu colocar o relatório do GB disponível neste blogue para uma discussão alargada.
Entre a data em que o documento foi dado a conhecer e a data provável de discussão em Senado terão passado 3 meses. Durante todo esse período sucederam-se sessões de esclarecimento pelos diferentes departamentos, no Conselho Pedagógico, junto de alunos, nos corredores e obviamente aqui.
Digamos que para quem pretendia aprovar prévia e apressadamente o projecto foi escolhida uma estratégia no mínimo pouco eficaz.

A teoria do endosso:
Esta teoria sugere que as personalidades externas à UMa poderiam ser seleccionadas cirurgicamente ou coagidas a endossar a proposta do GB numa tentativa de ganhar apoios externos para a aprovação interna.
Sempre fui um defensor de uma maior proximidade entre as Universidades e o meio envolvente. Mas reconheço que é uma banalidade pouco compreendida e ainda menos discutida. Existem exemplos em Portugal de inclusão de pessoas externas em órgãos de governo das Universidades (na U. Porto e penso que na U. Minho e de Aveiro). Tanto quanto sei foram experiências de pouco sucesso.
O que me admira não é o resultado mas a forma quase incrédula com que este insucesso é muitas vezes relatado pelos académicos. Como se fosse incompreensível que um empresário se sentisse um extra-terrestre num senado. Ou que possa duvidar da eficácia que os órgãos colegiais têm no nosso sistema de governo. Ou ainda que considerem que os assuntos normalmente discutidos nesses órgãos irrelevantes para a missão da Universidade.
O problema da participação das pessoas externas não nas respostas que nos dão mas nas perguntas que fazemos. Não é legitimo pretender que um empresário seja capaz de prever as necessidades e perfis de contratação da sua empresa a médio/longo prazo. Da mesma forma que não é legitimo pretender que um empresário valide um plano de estudos ou que pela sua mera presença num conselho académico transforme a gestão universitária numa eficiente gestão privada.
Tenho a certeza que existem muitas pessoas no nosso país que teriam o maior prazer em colaborar com as universidades. Basta fazermos as perguntas certas e demonstrar que estamos disponíveis para ouvir o que têm para dizer sem nos colocarmos nas torres de marfim. Basta darmos garantias que a sua contribuição é bem vinda e consequente.
A maior refutação da teoria do endosso é o facto de alguns pensarem que é possível condicionar ou coagir a opinião de personalidades externas.

A teoria da agenda:

Esta é a mais recente teoria e sugere que o Reitor tem uma agenda escondida (também conhecida por “master plan”) para implementar um modelo de educação liberal na UMa. É normalmente coadjuvada pela ideia que o senado ou outro órgão não pode / não deve interferir com a liberdade científica e pedagógica das unidades orgânicas.
É uma argumentação que resume quase na perfeição o anacronismo a que chegou o nosso sistema. Nada tenho contra ela se não considerasse que é a forma mais rápida das universidades perderem a sua autonomia face ao poder politico. A mentalidade desresponsabilizante, que chega ao limite de considerar perigoso que um Reitor tenha ideias e projectos claros sobre a Universidade que dirige. A surpresa por existirem Reitores que consideram importante ir a eleições com equipas e planos de acção, com objectivos definidos e datados e que para cúmulo se dêem ao trabalho que os tentarem colocar em execução.
Repito que considero ser uma teoria muito perigosa porque é totalmente verdadeira no que diz respeito à UMa, existe uma agenda, estava prevista, calendarizada e foi apresentada a tempo e horas. E a sublime ironia é que está em discussão, alargada, livre e plural. 


2 Responses to “Teorias da conspiração…”  

  1. 1 Carlos Nogueira Fino

    TEORIAS…

    A simples circunstância de o responsável, agora já sabemos que também o ideólogo, do “grupo de Bolonha” considerar que deve vir a público discutir o “currículo oculto” da sua proposta (teorias da aprovação prévia, do endosso e da agenda) é, por si só, já assinalável. De facto, essa necessidade também pode significar que essas teorias não serão tão mirabolantes assim, até porque algumas delas têm evidências a seu favor, ainda que as evidências, às vezes, admito, possam despistar.

    Como é evidente, o senhor Vice-Reitor não deve estar a responder a ninguém em particular. No entanto, como eu, por acaso, gosto bastante da teoria (comprovada pela prática) da aprovação prévia, e da teoria (amplamente constatada) do endosso, gostaria de aproveitar o ensejo para enumerar aqui alguns factos corroborantes de ambas.

    Teoria da aprovação prévia:

    A favor dessa teoria, avançaria apenas quatro pequenos pormenores:

    1. O senhor Vice-Reitor escolheu os membros do GB segundo o seu próprio critério, ignorando a autonomia científica das unidades orgânicas, prevista nos Estatutos da Universidade.
    2. Uma vez elaborada, a “proposta” foi imediatamente objecto de análise no Conselho da Universidade (antes de ser divulgada no interior da universidade, de modo a ser conhecida por todos), votada e aprovada.
    3. Quando foi colocada à “discussão” já trazia a tiracolo o respectivo rótulo de “aprovada no Conselho da Universidade” e passou a ser referida como “proposta da Universidade”.
    4. A “proposta” foi, pouco tempo depois, apresentada em conselho pedagógico, com o objectivo de recolher um parecer.

    Portanto, foi a partir deste nicho de autoridade, duas aprovações sucessivas em órgãos importantes da universidade, mas excluindo propositadamente as comissões científicas das unidades orgânicas, que a “proposta” iniciou o seu caminho.

    Teoria do endosso:

    Esta teoria encontra a sua fundamentação empírica na lista de personalidades escolhidas para darem a cara pela “proposta”: Todas de fora da Universidade, todas de fora do meio envolvente imediato da Universidade, todas oriundas do mesmo universo da “ciência & tecnologia”. É óbvio que excluo desta lista o Professor Adriano Moreira, homem de outras áreas, sendo também certo que o seu extenso contributo tem sido de natureza geral, não se tendo referido, até agora, à “proposta” em questão.

    É claro que o senhor Vice-Reitor admite que “O problema da participação das pessoas externas [estará] não nas respostas que nos dão mas nas perguntas que fazemos”. Pois. Mas, apesar de instado nesse sentido, ainda não encontrou oportunidade para nos esclarecer, nem dos critérios da selecção das pessoas, nem que perguntas lhes foram feitas.

    Para não referir algo que me parece no mínimo abusivo, e que é o aproveitamento da página inicial do portal da UMa para “endossar” apenas os contributos pedidos pela Reitoria, em detrimento de todos os restantes. Eu pedi, por e-mail, um link nessa mesma página para o contributo (crítico) da comissão científica do DCE e nem tive resposta.

    Carlos Nogueira Fino

  2. 2 Günther Lang

    Caro Nuno,

    Honestamente não acho que aqui há qualquer conspiração. Mas é completamente óbvio que, para quem tenha o poder de agenda e sabe o que quer, existe uma certa vantágem competitiva em relação aos outros:

    1) Na altura quando me abordou para indicar um membro do DGE para integrar o Grupo de Bolonha, disse, mais ou menos: “…mas que não sejam os presidentes dos departamentos, porque estes deviam desenvolver as suas próprias ideias quanto à transição…”. Para além disso referiu que o objectivo do Grupo de Bolonha era de “…acompanhar os desenvolvimentos…”.
    Portanto, é bem concebível que, já naquela altura, o Nuno sabia o que quer, e escolheu os membros do grupo de modo a evitar muita resistência às suas ideias e/ou vedou implicitamente o acesso a alguns que talvez pudessem não gostar das mesmas — quais, na altura, nem sequer conheciam. Para além disso, também não mencionou que a missão do grupo seria desenvolver o “master plan”. Portanto, ao abordar-me sabia possivelmente um bocadinho mais do que eu…

    2) Quando apresentou uma vez no DGE as suas ideias, que identificou como as suas — de modo que na altura até ninguém fez a ligação ao Grupo de Bolonha (!) — só falou nas línguas, nas tecnologias de informação, e nas competências quantitativas. Todos nós concordávamos relativamente às primeiras duas. Quanto às últimas, todos nós do DGE mostrámos a preocupação de que uma matemática levezinha para todos não seria o ideal para economia e gestão. Portanto, ninguem ligou a sua visita ao Grupo de Bolonha sequer, e ninguém sabia da dimensão que o projecto entretanto tinha atingido. Só uns poucos dias antes da reunião do Conselho da Universidade eu, enquanto conselheiro, tomei conhecimento do “master plan”.

    3) Certamente também não sabia, quando convidou o Prof. JVC a participar nas reuniões, que ele partilhava as suas ideias… e que ele pode ser muito convincente…

    4) Dada a sua ambição de estabelecer uma “nova educação liberal” (Prof. JVC), é algo preocupante que a Profa. Catedrática do DCE ficou irritada com a sua metodologia ao ponto de deixar o grupo. Enfim, também não ficava admirado se as professoras da Escola Superior de Enfermaragem fugissem da sala se eu me ambicionasse de lhes explicar o quê deve ser considerado um bom plano de estudos para a licenciatra em enfermagem…

    Portanto, não pode ficar admirado que há teorias de conspirão. No entanto, reitero que não é conspiração: é o poder da agenda, que o político utiliza para atingir seus objectivos. É democracia pura! E, como o resultado da votação no Conselho da Universidade mostrou, a sua proposta convenceu uma larga maioria dos conselheiros — em particular aqueles que tem intervenção garantida nas transversalidades. Se o resultado é positivo para gestão e economia é questão bem diferente.

    Günther Lang, DGE

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