A seguinte intervenção representa as minhas convicções pessoais, convicções que provavelmente não correspondam às de outro pessoal do Departamento de Gestão e Economia.  

Fiquei entusiasmado com a elevadíssima participação neste blog de tantos docentes e alunos da nossa digníssima casa para se debater a Proposta de Adaptação da UMa ao Espaço Harvardiano, perdão Europeu, de Ensino Superior. Com o objectivo de não ganhar a má fama de não querer participar neste importante debate, tomo agora a liberdade de mais uma intervenção politicamente incorrecta.

Em primeiro lugar, e sem qualquer ironia, felicito a Equipa Reitoral pela coragem de publicar neste site opiniões pedidos a personalidades diversas sobre a proposta elaborada pelo Grupo de Bolonha.

Não sei se podemos contar com mais contributos, mas aquilo que se tem acumulado desde já deve ser o suficiente para abrir os olhos a muitos que, com entusiasmo frenético, abraçaram a referida proposta. Na minha opinião, e também sem qualquer ironia, acho que o Grupo de Bolonha devia reunir de emergência, e – sem ofensa — melhor sem seu guia espiritual, o Prof. João Vasconcelos e Costa, para analisar o que estas personalidades tentaram transmitir – não só nas entrelinhas – e preparar uma proposta mais realista, mais liberal, mais pormenorizada, mais adaptada às respectivas licenciaturas, com primazia no ensino das respectivas ciências – não um “produto educacional revolucionário”, na tradição daquele Bispo Truman, produto esse que só necessita de um bom marketing para atrair multidões de peregrinos dos cinco continentes para se deixarem impregnar pela nossa grande sabedoria liberal, transversal e antropológica: “Antes de pagarem um balúrdio para ingressarem em Harvard, venham para a UAntAtla (Universidade Antropológica do Atlântico, nova designação para a UMa), que é muito mais económica e oferece uma educação quase tão liberal.”

Preferível, de todo, na minha modesta opinião, seria se o Sr. Reitor convidasse o Grupo de Bolonha para definir um leque mínimo de competências genericamente profissionalizantes comuns a todas licenciaturas. Porquê mínimo? Porque a ênfase no ensino superior está na ciência e não na formação profissional, nem profissionalizante. Ambicionar dar uma formação profissionalizante até tem potencial para criar mais confusão ainda: um Licenciado em Economia, por exemplo, pode exercer um vasto leque de actividades (desde gestor a Presidente da República (embora, na opinião do Dr. Mário Soares, sendo só um “razoável economista” não habilita para o último cargo)). Então teríamos de ensinar a todos alunos de economia todas as áreas de gestão, direito, ciências políticas, línguas, diplomacia, psicologia etc. etc. Diria que qualquer tentativa de abranger num “super-cadeirão (como dizia o Prof. José Tribolet) de transversalidades” todas as possíveis profissões – de todas as licenciaturas ainda por cima – é simplesmente grotesca!

Para além disso, toda a discussão sobre uma formação profissional e/ou profissionalizante é em larga medida fútil: até à data qualquer licenciatura tem saída profissional, umas mais outras menos, com uma empregabilidade que varia entre espaços geográficos, como é óbvio. E com o possível sistema de 3+2 de Bolonha, “o mercado” vai ter de lidar com os bacalhaus de 3 anos – se não gostar, então espera mais 2 – a culpa não é das universidades. Portanto, antes de entrarmos numa hiperactividade para enchermos a já instalada balda gigante (© Prof. José Tribolet) deixem-nos, por amor de Deus (digo eu como ateu convencido), estabelecer um mínimo de competências genericamente profissionalizantes comuns a todas as licenciaturas – coisa que seja útil! E se for possível juntar ao útil o agradável, ainda melhor!

Comunicação Escrita e Oral

Já na minha primeira intervenção disse que sim – desde que não se tenha como ambição “científica” colmatar as deficiências do secundário (erros de ortografia e gramaticais), mas sim, uma abordagem moderna de competências em comunicação (técnicas de apresentação, retórica, expressão corporal, etc.). Julgo que uma cadeira / um módulo de 4h/semanais durante o primeiro semestre deve ser o suficiente para tais competências. Se for bem feito – o que quer dizer em primeiro lugar que não deve parecer, nem ser, aula teórica de língua portuguesa – até os alunos aderiam a título voluntário a mais iniciativas do género.

Competências Sociais

Considerava também um leque de competências bastante importante: resolução de conflitos, capacidade de liderança, trabalho em grupo etc. A Professora Glória certamente saberá desenhar um programa muito interessante. Carga lectiva: Mesma que a anterior.

Língua Estrangeira

Reitero que a língua obrigatória deve ser o inglês, por vários motivos: a) é a língua oficial do mundo, b) é a língua oficial das ciências, c) os empregadores exigem que um licenciado domine pelo menos o inglês, d) com o inglês a gente desenrasca-se em quase todo o lado, e) para preparar todos os alunos de gestão e economia para minha proposta de introduzir no DGE um ensino em inglês numa das cadeiras em cada semestre – não quero que apareçam três alunos a se queixarem deste facto porque tinham escolhido o romeno e não sabem nada de inglês.

A minha insistência no inglês nada tem a ver com uma falta de estima por outros idiomas, nem com qualquer dúvida da utilidade profissionalizante das mesmas. Antes pelo contrário: tenho a certeza que o Eng. Belmiro de Azevedo pagava três vezes o salário normal a um engenheiro com conhecimento em mandarim, disposto a lançar um empreendimento na China. Também outras línguas é que se valorizam, não há dúvida disso.

Quanto à cultura: certamente também não faria mal ao engenheiro ter conhecimentos da cultura chinesa, mas como no caso do mandarim deixava esta decisão ao aluno (em liberdade, como referiu o Prof. José Tribolet). Em vez de mandar leccionar um “Tutti Frutti” do género 1000 Culturas do Mundo em 30 horas, obrigando liberalmente a todos alunos a participarem, aproveitava antes para criar competências nos alunos de gestão e economia em gestão e economia, respectivamente. Nem por isso, se alguém entender útil conhecer determinada cultura certamente ninguém o impedirá.

Diria que uma cadeira de inglês semestral de 4h/semanais no primeiro ou segundo semestre seria o adequado para criar bons fundamentos. Poderá pensar-se em mandar aprofundar/refrescar os conhecimentos adquiridos mais tarde, no 4º ou 5º semestre do respectivo curso de licenciatura (2h/semanais).

Pronto, acho que é isto que, sem dúvida, vai ser útil para os alunos de qualquer licenciatura. Julgo que deve ser suficiente o equivalente a três cadeiras semestrais para cobrir estas matérias. Se não acreditarem, então que vão consultar a página da Universidade de Konstanz, por exemplo – ou perguntam ao Prof. João Vasconcelos e Costa, que ele é um conhecedor íntimo das reformas levadas a cabo naquela universidade. Quanto às outras transversalidades propostas pelo Grupo de Bolonha:

Domínio das Tecnologias de Informação:

Na minha experiência qualquer aluno hoje em dia sabe escrever um texto em Word, desenhar uma apresentação em PowerPoint e procurar material na WWW. Aprende-se sozinho, com amigos ou colegas. Nem por isso, o Centro de Cálculo deveria oferecer módulos para os mais notórios analfabetos nesta área. No entanto, a participação deve ser a título voluntário e extracurricular, não no âmbito de uma cadeira oficial. Quanto ao processamento e a análise de informação: quase toda a informação a analisar é específica à área científica da licenciatura, bem como os eventuais programas informáticos a utilizar para esta análise. Portanto, a escolha destas tecnologias deve caber aos respectivos departamentos e não pode ser centralizada.

Competências Quantitativas e Conhecimentos Científicos Básicos:
Não são competências genericamente profissionalizantes. O grau de envolvimento, em termos de quantidade e qualidade (profundidade) varia com as licenciaturas. Portanto, nem vale a pena discutir estes assuntos fora das respectivas Comissões Científicas. Estas comissões deviam conhecer as doses certas de matemática e ciências que cada uma das suas licenciaturas necessita – e o DME a capacidade dele para satisfazer a procura. Portanto, acho pouco útil mandar um grupo interdisciplinar fixar um óptimo para todos, advertindo para a possibilidade do opting-out. Porquê comprometer recursos humanos valiosos e aborrecer toda gente com a mesma matemática: aqueles que à partida sabem que vão deixá-la, por um lado, e por outro, aqueles que a necessitam e/ou gostam? Com os “Conhecimentos Científicos Básicos” é a mesma coisa: a química precisa de física, a biologia de química, a economia não precisa de bioquímica etc. Logo, que os grémios dos respectivos departamentos decidam o blend. Não consigo perceber porquê o Grupo de Bolonha sequer chegou à ideia de debruçar-se sobre este assunto.

Raciocínio Ético e Deontológico:
Diz o relatório do Grupo de Bolonha: ‘As competências de raciocínio ético e deontológico permitem confrontar os alunos com as bases das ciências sociais e humanas…’ Como membro do departamento que se assegurou o monopólio nas ciências sociais, devia exaltar-me com a perspectiva de o DGE poder assumir um papel importante nesta área. Não me exalto nada, de todo: as únicas teorias positivistas formais aceitáveis sobre algo que se pode designar de comportamento ético ou moral são do John Rawls (A Theory of Justice (1971)) e do Robert Nozick (Anarchy, State and Utopia (1974)). A teoria do primeiro, da original position (que curiosamente assenta na teoria dos jogos), não tem significado real (mas sem prejuízo disso já foi aplicada vezes sem conta … afinal quem conhece certos tipos de cientista sabe porquê) por se basear numa situação hipotética. A do segundo, da procedural justice, é um disparate, isto porque, até com um procedimento justo, se partirmos de uma situação moralmente inaceitável o procedimento justo não adianta nada (em breve: nonsense in –> black box -> nonsense out). Logo, há que constatar que não existe nenhuma teoria cientificamente coerente que tenha como resultado científico a necessidade de comportamento ético ou moral do indivíduo. Enfim, devemos cumprir as leis, se não, vamos à cadeia; devemos dizer o politicamente correcto, se não, a gente hipócrita nos despreza. Será necessário ensinar estes factos a um aluno? Duvido, porque naquela idade já se sabe disso. Quem quer ouvir sermões é que vá à igreja, consulte seu guru, vá ao Hide Park, ou sei lá. Mas que a nossa UMa tenha a dignidade e inteligência de deixar a pseudo-cientificidade fora das suas muralhas. Já anteriormente tinha dito que na economia existe uma área chamada social choice theory em que se analisa formalmente questões relacionadas. Não me importava oferecer esta cadeira no âmbito de um mestrado em economia – até é uma matéria extremamente interessante e elegante – com o convite a toda gente interessada de outros cursos a participarem. De todo, devem ter como precedências Matemática I, II e Microeconomia I (dos actuais cursos de gestão e economia) … Pois, a matemática é transversalidade indispensável para perceber muita coisa: quem não a quer, não tem direito a saber! O segredo também não está no saber, mas sim, em lá chegar!

Transversalidades e Transversalidades

Pois, há transversalidades e transversalidades… É espantoso que foi necessária a intervenção do Eng. Belmiro de Azevedo para explicar ao Grupo de Bolonha que conhecimentos em Economia, Gestão, Finanças, Direito dos Negócios, Marketing ou Análise e Estudos de Mercado devem ser considerados transversais. Porquê é que será que o Grupo de Bolonha se esqueceu disso? Prepararam uma mescla de certas áreas científicas, declarando estas, e só estas, competências transversais. Como é que é possível, dada a manifestada ambição de instalar uma “educação liberal”, ignorar as ciências sociais, as histórias e as artes? Como é que é possível, também esquecerem-se da Educação Física que constitui actividade obrigatória na maioria dos liberal arts colleges nos EU?

No entanto, não vou agora ter a hipocrisia de tentar capitalizar com a afirmação do Sr. Engenheiro. Não intento fazer transbordar o balde (ou melhor: a balda) gigante. Antes, prefiro adiantar uma visão mais diferenciada das competências transversais e dos conhecimentos transversais.

Para começar: as licenciaturas em gestão e economia são provavelmente das que mais conhecimentos e competências transversais transmitem ao aluno: economia (gestão), direito, sociologia, história, informática, inglês (como opção). Conhecimento significa saber de certos factos ou de resultados deduzidos logicamente a partir de certas hipóteses e/ou factos (conhecimento condicional), enquanto competência significa saber construir conhecimento condicional, desvendar factos, e/ou aplicar resultados gerais em casos específicos. Como é evidente, é preferível transmitir competências – porque é isso que o próprio cientista deve possuir, deve desenvolver e cultivar em si mesmo. Ensino superior não serve para meramente transmitir conhecimentos, ou seja, encher chouriços. Deve preparar o aluno como se quisesse criar uma nova geração de cientista. Pois, como já anteriormente tinha dito: uns abortam precocemente a experiência e estabelecem-se como “simples” licenciados, enquanto outros vão até catedrático. C’e la vie !

Os referidos conhecimentos e competências transversais já existentes nas licenciaturas de economia e gestão são úteis para a profissionalização do aluno, mas não são indispensáveis para a mesma: como a experiência mostra, qualquer licenciado em economia com boa média encontra um bom emprego – mesmo sem saber nada de contabilidade, história, sociologia e direito (deve ter competências em inglês, de todo). Porquê será?

É porque, numa boa escola de economia, apreende o pensamento formal e analítico – que em si constitui competência universal. Se for preciso fazer a contabilidade, pega num livro e apreende, mais rapidamente até do que o típico aluno de gestão. Se for preciso gestão financeira ou marketing, também lá vai. Apreendeu a apreender! Portanto, é bem concebível ter uma licenciatura em economia cientificamente atraente, com quase só economia – mas com uma boa dose de matemática – sem prejudicar a saída profissional do aluno. Até – o facto possa surpreender muitos – a especialização traz vantagens, e quem quer especializar-se não deve ser impedido de o fazer – sob o pretexto pseudo-intelectual de que toda a banda deve ser larga, o indivíduo deve ser “completo”, e quanta mais inter-multi-culti-disciplinaridade, antropologia e multitasking, melhor.

Para o aluno em gestão, conhecimentos transversais em direito, psicologia e sociologia também valorizam a licenciatura. Muitos empregadores apreciam gestores com conhecimentos em direito do trabalho, direito comunitário etc.

E a licenciatura em psicologia? Deve obrigar-se aos alunos da mesma a frequentarem cadeiras em gestão ou economia, ou a assistirem a uma introdução rapidinha a estas áreas? Só por eventualmente um aluno num dia abrir um consultório e ser necessária uma transferência bancária? Disparate! Que contrate um TOC para fazer a contabilidade e um advogado para tratar dos clientes queixosos.

E a licenciatura em matemática? Deve esta ter necessariamente conteúdos de gestão e economia? Igualmente disparate! Há saída para matemáticos. Talvez não muita na RAM. Mas quem mandou que a UMa deve preocupar-se só com o mercado regional? Não deve, mas sim, deve ter a honestidade para com os alunos e explicar-lhes que a empregabilidade das diferentes licenciaturas difere entre espaços geográficos.

Poderia continuar-se a analisar, para todas as licenciaturas, quais os conhecimentos e competências transversais que mais valorizavam cada uma – sem por em causa a primazia do rigor da respectiva área científica. Não considero este empreendimento uma tarefa minha, nem a do Grupo de Bolonha: deveriam ser os respectivos departamentos a fazê-la e negociar entre eles.

É, de todo, absolutamente espantoso que o Grupo de Bolonha tenha ignorado por completo os já existentes conhecimentos e competências transversais nas diferentes licenciaturas. Então, não valerá nada de direito, de sociologia, de história na licenciatura em economia e deve ser substituído por uma mescla gigantesca de – em grande parte – duvidosa utilidade para a referida licenciatura – e provavelmente para qualquer licenciatura? É simplesmente grotesco! Após ingestão deste primeiro prato ficam 4 anos – para formar um ‘mestre’ (nem falo dos 2 anos para preparar um bacalhau, perdão ‘licenciado’) – com 4 cadeiras semestrais. Se queremos manter os actuais ingredientes transversais na licenciatura em economia, o que acham que resta de economia? Talvez uma coisa a que chamaria de “Licenciatura em Transversalidades com Pinga de Economicismo, se tiver Tempo para isso”.

Tutti Frutti e Banda Larga

Como tinha afirmado mais acima, nem toda a banda deve ser larga, mas digo agora: sim, pode haver também uma banda larga! Mais acho: nenhuma licenciatura necessita de muitas transversalidades – que se ensina lá a respectiva área científica – mas digo agora: não existe nada que impeça um indivíduo a adquirir competências diversas ao longo da sua vida académica.

Para começar com o argumento: teria sido muito interessante se o Eng. Belmiro de Azevedo tivesse explicitado o que ele considera “banda larga”. Apostava, no entanto, o meu salário de Março que um dos seus favoritos de banda larga deve ser o Engenheiro com MBA, conhecimentos em línguas e mobilidade. Alguém aceita a minha aposta? Ninguém? Pois, já sabia.

Será um problema para a UMa formar tal sujeito? Não podemos oferecer MBA desde já porque os colegas da área de gestão são jovens ainda. No entanto, um mestrado profissionalizante em gestão é bem possível a qualquer altura, recorrendo inteiramente as cadeiras da (futura) licenciatura em gestão. Porquê não oferecer tal coisa a um futuro licenciado (de 3 anos) ou a um mestre (de 5 anos) das Engenharias? Pois, são mais 2 anos, mas, como a experiência noutros países mostra, tem excelente saída – e investir 7 anos no ensino superior não é excessivo. Não conto, no entanto, com a entrega voluntária de um futuro licenciado em engenharia por parte do DME. Enfim, um engenheiro de 3 anos, o que vale? Entendo, também tenho dúvidas sobre o valor do futuro licenciado em economia… E entrar na Ordem: nem pensar!

Nem por isso, na Alemanha já existem Licenciaturas Integradas e, mais recentemente, Bacharelatos Integrados de 3 anos do tipo: Engenharia Civil com Gestão (Wirtschaftsbauingenieur), Física com Gestão (Wirtschaftsphysiker), Química com Gestão (Wirtschaftschemiker), Engenharia com Gestão Logística e Marketing (Vertriebsingenieur), etc., para além das mais tradicionais pós-graduações e MBAs para engenheiros, físicos, etc. puros. Até são respeitadas faculdades de engenharia e de ciências que alinharam nestes projectos. E o mais espantoso é que conseguem o resultado sem prejudicarem as licenciaturas e bacharelatos em física, química e engenharia pura: os “integrados” são levados até certo ponto na respectiva ciência, talvez até ao 2º ano, deixando de fora umas cadeiras menos importantes. Em simultâneo frequentam cadeiras dadas pelos respectivos departamentos de gestão – cadeiras da respectiva licenciatura em gestão. Na maioria dos casos nenhum dos departamentos envolvidos cria cadeiras específicas para os cursos integrados. Pois, há uma maneira inteligente de criar uma “banda larga”. Para a UMa não recomendava cursos integrados – para não enfraquecer os tradicionais cursos puros que já agora enfrentam problemas – mas podem acreditar que vou atrás dos futuros licenciados e mestres das ciências…

Os cursos integrados, bem como as vertentes mais tradicionais das pós-graduações em gestão, têm muita saída (embora o Bacharel de 3 anos ganhe menos do que o licenciado de 4 anos). E ninguém se rala com as Ordens (que até são meras associações profissionais de direito privado): isto porque é a lei que determina quem é engenheiro e quais os exames de estado específicos (Staatsexamen) que deve passar para exercer determinada actividade. Mesma coisa acontece com os TOC (até nem é necessário alguém ter estudado gestão ou economia para ser TOC). É bem transparente, e toda gente tem a perfeita noção que se pode fazer muita coisa gratificante sem ter os referidos exames específicos (que até podem ser feitas após a licenciatura). Cá o mercado anda com a percepção que um licenciado em engenharia deve logo entrar na ordem, se não, rien ne va plus. Pouco surpreende que toda esta percepção é bem cultivada por parte das Ordens e das próprias escolas de engenharia…

Afinal, o inglês, e talvez mais um idioma, já se tinha apreendido no liceu – basta manter-se exposto ao longo dos estudos, o que não deve ser difícil visto a literatura científica ser em inglês e parte da oferta lectiva também o poder ser. E quem assim o entender pode apreender mais um idioma em cursos intensivos. Não é preciso institucionalizar esta aprendizagem a nível científico – afinal, também não acredito que departamentos universitários de estudos ingleses, germanísticos, etc. se queiram ambicionar com a mera administração de cursos de línguas em vez de transmitirem sua metodologia científica aos alunos da respectiva área.

Mobilidade? Pois, esta não se ensina ao aluno. Informa-se a ele que é importante e gratificante – do ponto de vista financeiro, bem como intelectual.

Sempre estou a falar nas engenharias e ciências em combinação com a gestão. E as línguas, a cultura etc. Pois, é mais fácil transmitir a gestão a gente com uma primeira formação em raciocínio analítico e formal – até apreendem com muita mais facilidade do que o próprio aluno típico em gestão. Mas não me importava em nada que um futuro “Licenciado em 3 Línguas e Culturas” se inscreva no “M.A. em Gestão”. Pois, tem de se desenrascar com alguma matemática moderada, mas não tenho a mínima dúvida que vai ter saída profissional. Pois, tem de tomar esta decisão atempadamente para, ainda durante a licenciatura, frequentar uma cadeira em matemática e outra em estatística – mas com uma redução de 5 para 4 cadeiras semestrais deve ser possível (afinal, esta redução pode justamente ser aproveitada para o aluno criar precedências essenciais para entrar num mestrado profissionalizante numa outra área científica! O padrinho (tutor) terá um papel crucial nisto!). Portanto, não há problema em criar uma “banda larga” que combine línguas, cultura etc. e gestão. Também é concebível um “M.A. em 2 Línguas e Culturas”, com base na “Licenciatura em 3 Línguas e Culturas”, que tente atrair futuros licenciados em economia – embora seria capaz de gostar menos desta ideia…

É absolutamente espantoso que o Grupo de Bolonha não tenha contemplado sequer estas possibilidades muito eficazes para criar competências transversais extremamente úteis do ponto de vista da profissionalização. Em vez disso, um Potpourri de Entretenimento Superior ao Bispo Truman como Hors-D’Oeuvre, numas áreas científicas (e não só) declaradas o sine-qua-non – enfim, em Harvard faz se (quase) o mesmo – só para tirar aos departamentos qualquer margem de manobra e os recursos humanos para transmitirem competências directas – mais avançadas (da respectiva área científica) – e transversais nas futuras licenciaturas e mestrados, profissionalizantes e científicos. Enfim, há que evitar a qualquer custo o ideal humboldtiano da união da investigação e do ensino, ou pelo menos o esforço de uma aproximação dos dois – Harvard também está (quase) muito longe disso. Há que evitar ao máximo a especialização do aluno numa área de aprecio. Afinal, há também que evitar a qualquer custo que a UMa jamais fabrique um cientista que seja capaz de contribuir intelectualmente um bocadinho mais para a ciência do que artigos do género “AAA – the Portuguese Case”, “BBB – the Portuguese Experience” ou “CCC – an Application to Portuguese Fishery”. Investigação de ponta? Em Harvard também (quase) não se faz.

Umas Contas e Alguma Economia

A propósito de Harvard: Aquela instituição tem um rácio aluno/professor de 8 para 1, enquanto cá gestão e economia têm 17 para 1 – o dobro aproximadamente. As turmas das cadeiras especificamente para economia cá não devem ter mais do que 20 alunos (são 20 vagas abertas cada ano) em média – e 20 alunos por cadeira não é excessivo. Portanto, se tivéssemos à nossa disposição o dobro do número de professores actualmente estabelecido, que esplêndida licenciatura poderia dar-se! E ainda restava alguma capacidade para dar uma introdução à economia e gestão a 500 caloiros de cada ano.

Voltando agora para a realidade da UMa, aproveito para fazer umas contas: se, dentro das 6 cadeiras transversais previstos pelo Grupo de Bolonha, nos coubesse a regência de ½ de uma cadeira, se a exigência em termos de horas de leccionação fosse igual às cadeiras tradicionais (4h/semanais), se fosse aceitável ter 100 alunos ao mesmo tempo num anfiteatro durante a aula teórica, e uma turma prática pudesse ter 50 alunos, então teríamos uma carga horária de ½ x (5 x 2h + 10 x 2h) = 15h semanais num semestre para administrar uma dose de economia a 500 caloiros, ou seja quase 4x daquilo que uma cadeira normal de 20 alunos nos custa. Portanto, 1 cadeira de duvidosa utilidade para uma grande maioria custava-nos 4 cadeiras de economia ou gestão pura em que se pudessem transmitir competências. É simplesmente absurdo!

A propósito de competitividade: Fala o Grupo de Bolonha em “Uma UMa competitiva”. Como é possível falar em competitividade, desconhecendo-se e/ou ignorando-se por completo o que as grandes escolas nacionais das respectivas áreas científicas vão fazer? Como é possível avançar com uma estratégia que ignore por completo as possíveis reacções dos concorrentes? Ora, tal só é possível quando se anda com a percepção que não existem concorrentes: somos uma ilha e assim as nossas vítimas não podem fugir; não sabem nadar sequer, ainda menos para o continente tão distante… Portanto, tomam lá a nossa embalagem engraçadinha!

A UP já se comprometeu a dar licenciaturas de 4 anos e mestrados de 1.5 a 2 anos! Considero louvável esta resistência ao quase já combinado sistema de 3+2 e à percepção, de alguns, de que a ocasião deve ser aproveitada para reformas revolucionárias do ensino – e quem não acredita nisso é chamado de reaccionário. Oxalá também haja cálculo economicista na decisão da UP: em vez de reduzirem as licenciaturas em gestão e economia para 3 anos, dão mais 1 ano de borla ao aluno, que talvez ache esta oferta mais atraente do que a do Grupo de Bolonha de 2 anos de gestão e economia – ainda mais porque o licenciado de 2 anos vai certamente ganhar menos do que aquele de 4… Se, para o mestrado, fica na UP ou volta para a UMa: não deve ser difícil adivinhar.

Mais… quanto à questão se um dos nossos licenciados de 2 anos de gestão ou economia entrará num mestrado da UP…

Talvez a UP tenha antecipado a decisão política de fixar o valor da propina do mestrado ao mesmo nível como a da licenciatura, quando o mestrado é indispensável para o exercício de uma actividade profissional. Neste caso dar licenciaturas em gestão e economia de 4 anos é muito desperto: 4 anos dão os 240 ECTS necessários para ingressar na Ordem dos Economistas, e assim, os respectivos mestrados podem ter um pricing mais flexível. Dada a dimensão da FEUP, não lhes custa muito, em termos de pessoal, dar mais 1 ano de licenciatura – para depois cobrarem no 2º ciclo (afinal, sempre dizem que as universidades devem auto-financiar-se!). Para nós seria mais difícil dar 5.5 a 6 anos com o pouco pessoal que temos, mas há que fazer bem as contas.

A Hora dos Antropolosófogos (ou: A Caixa da Pandora)

Devem perceber, por conseguinte, porquê a proposta elaborada pelo Grupo de Bolonha, com a ajuda do seu guia espiritual, o Prof. João Vasconcelos e Costa, não me exalta nada, para dizer o mínimo.

Mas enfim, também não é necessário convencerem-me a mim e os meus motivados colegas professores e investigadores das áreas científicas de gestão e economia da qualidade das futuras licenciaturas em gestão e economia, mas antes o Departamento de Educação Física e Desporto, o Departamento de Estudos Romanísticos etc., ou seja: a maioria dos membros do Senado.

Como a aprovação da proposta em Conselho da Universidade revelou, esta goza de muita popularidade – em particular junto de quase todos os representantes daquelas áreas científicas e/ou departamentos que tem intervenção garantida na leccionação das declaradas competências transversais. Afinal, as coisas sempre se reduzem ao que interessa numa universidade: o ETI! Símbolo esse da repartição do bolo entre os departamentos.

Também já se registou o “Aleluja” do Herrn Kollegen Kurt Millner, um dos poucos assumidos Antropolosófogos desta Universidade – mas adivinho que deve haver mais deles, incógnito. Esta gente é desperta, muito desperta mesmo: querem dar despercebidamente uma licenciatura da área científica deles, a antropolosofogia, através de um sistema engenhoso de outsourcing, ou seja, simplesmente tentam convencer as outras áreas científicas – aquelas menos completas, como as ciências exactas, a economia, etc. – que aceitem a integração de cada uma num cocktail de transversalidades. E pronto, está!

Parece que tenha chegado a hora dos antropolosófogos! Mas deixe-me propor-lhe um negócio Lieber Herr Kollege Millner: seu voto no Senado contra a proposta elaborada pelo Grupo de Bolonha em troca do meu voto a favor da criação de uma Licenciatura em Antropolosofogia. O que acha? Uma licenciatura só para esta área científica – the real thing – dada exclusivamente por professores da mesma, gente completa que já incorpora a indispensável transversalidade e inter-multi-culti-disciplinaridade – com a vantagem acrescida que nem será necessário recorrer a outros departamentos para criar as mesmas. Ainda a minha palavra de honra que nunca irei intrometer-me naquela licenciatura, tentando impor aos alunos daquela área aulas primitivas de economia ou gestão.

Recomendo-lhe que aceite a minha proposta, se não vai correr o risco de poder dar, no máximo, umas aulinhas elementares de alemão, a uns provavelmente poucos caloiros que se interessem pela nossa língua materna.

Em Resumo

É bem evidente que a proposta elaborada pelo Grupo de Bolonha vai gravemente prejudicar qualquer tentativa de estabelecer um ensino científico moderno, de rigor e profundidade intelectual, e de qualidade comparável à de instituições de referência, nacionais e europeias, nas áreas de gestão e economia – por não falar na motivação da gente que no DGE conjuntamente comigo trabalha na realização destes objectivos. Não que não existam algumas ideias boas e ponderáveis no relatório, o problema é a dimensão simultaneamente megalómana e provincial que se reflecte na aspiração de copiar (certos aspectos superficiais de) Harvard, por um lado, e por outro, na ambição de colmatar deficiências do ensino secundário. Assim, não deve ser difícil adivinhar a reacção de toda gente de categoria na área de economia e gestão, e não só, com que tenho falado após tomarem conhecimento da proposta.

Não observamos neste blog a mesma intensidade de reacções, o que deve ser óbvio, mas como a maioria das intervenções mostra, há que exercer muita cautela quanto à natureza, à dimensão e à implementação de competências transversais. Enfim, nem é necessário recorrer a observadores de fora para chegar a esta conclusão, basta uma introspecção intelectualmente rigorosa e diferenciada.

Por conseguinte, permito-me propor que a metodologia para abordar o problema da transição para o sistema de Bolonha seja adaptada à realidade das diferentes áreas científicas. Julgo que se devia proceder de seguinte forma:

  1. As comissões científicas dos departamentos devem definir as licenciaturas e mestrados das suas respectivas áreas científicas que pretenderem oferecer, incluindo as durações das mesmas, tomando em conta a situação actual do ETI. Se determinado curso for interdisciplinar, devem negociar já nesta fase com outros departamentos envolvidos. Para este planeamento deve partir-se dos seguintes princípios:
    a) O número de cadeiras por semestre é de 4;
    b) No 1º semestre do 1º ano são previstas 2 cadeiras, no 2º semestre 3 cadeiras para conteúdos a definir pelos respectivos departamentos; as restantes 3 cadeiras são reservadas para administrar módulos em competências genericamente profissionalizantes.
  2. Simultaneamente os departamentos devem definir e identificar módulos de competências dentro dos planos de estudo das respectivas licenciaturas para exporem estes a alunos interessados de outras licenciaturas, identificando e estabelecendo ainda eventuais precedências.
  3. Os presidentes de todos os departamentos, conjuntamente com (mais) um representante do DCE, DPEH, DEAG e DER estabelecem os pormenores relativamente às competências genericamente profissionalizantes, ou seja: Comunicação Escrita e Oral, Competências Sociais, Língua Estrangeira.
  4. As propostas em 1 a 3 são apreciadas em Conselho da Universidade.
  5. Se não surgirem problemas a resolver, então as propostas vão ao Senado.

Pronto, acho que este poderá ser um procedimento adequado para sistematizar a construção de competências transversais do ponto de vista científico, por um lado, e de competências genericamente profissionalizantes, por outro. Depois chamamos ao último grupo de “educação liberal” – e assim, fica preservada a gravitas da expressão. Afinal, o resto será só uma questão de um bom marketing!

P.S.

Achei também interessante a recente reflexão jurídica do Prof. Adriano Moreira sobre a autonomia universitária, embora não tenha percebido nada do que ele quer dizer – que certamente não é culpa dele, mas sim, inteiramente minha, enfim, estou mais habituado a fórmulas e três linhas de texto, ao máximo.

Günther Lang, DGE


One Response to “Spaghetti Bolognese com Salsa Liberal au Maître d’Harvard”  

  1. 1 JVC

    Um texto inteligente, com propostas, é sempre um estímulo para um debate, principalmente, claro, quando não concordo com as propostas e os seus fundamentos. No entanto, tenho sempre considerado que este espaço de discussão é principalmente destinado aos professores e estudantes da UMa.

    Este meu comentário limita-se à resposta a uma afirmação, repetida, de que eu sou o guia espiritual da Comissão de Bolonha. Enaltecer-me-ia, mas é inteiramente falso. Até creio que há de facto um guia, aceite por todos, mas toda a gente sabe quem é. O meu papel é estritamente de consultor. Até tem acontecido que propostas minhas não tenham sido aceites, como acontece a qualquer consultor. Só por gentileza é que o Prof. Nuno Nunes incluiu o meu nome como co-autor. Não é hábito, em relação a consultores, mas aceitei o gesto como sinal de apreço pela minha contribuição.

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