José Ferreira Gomes José Ferreira Gomes, Prof. Catedrático de Química, Vice-Reitor da U. Porto, D. Phil em Química Teórica pela University of Oxford.

1. Demografia
Pelas minhas contas deve haver cerca de 3000 nascimentos por ano se 50% chegarem ao superior, teríamos 1500 novos alunos por ano.
É uma ilha. Merece algum planeamento cuidadoso das necessidades locais para algumas áreas. Estou a pensar nos docentes do básico e secundário, enfermeiros, etc. Um nível de formação, incluindo o vocacional que deverá ser local e portanto a exigir planeamento. Numa população grande esse planeamento tem de ser moderado; numa população muito pequena como a da ilha não se pode correr o risco de grandes desequilíbrios. Falo nisto porque não vi referência a estudos nesta área. Devem existir.
Lendo o documento, a meio, parecia-me que se esquecera do politécnico e perguntava-me que percentagem dos 1500 por ano deveriam ir para U. e para P. Depois vi que, sabiamente, o faziam depois com o “modelo profissionalizante”. Mas os números parecem-me optimistas: 120 Prof. vs. 360 Educ. liberal. A realidade é que é precisa mais gente nas formações desta área.
2. Liberal Arts
Quando comecei a ler a sua proposta tive dúvidas sobre a sustentabilidade deste modelo na UMa em concorrência com o modelo tradicional nas outras Universidades. Depois pensei que a insularidade poderia permitir esta experiência sem grandes riscos. Se o conseguirem seria uma grande contribuição para a modernização do nosso ES (…) Pareceu-me ver uma estratégia para juntar os méritos deste modelo às necessidades de introduzir racionalidade numa instituição que se manterá pequena mas oferecendo saídas diversificadas. Excelente estratégia. Espero que consiga seguidores e que tenha êxito.
3. Mobilidade
Pareceu-me que o problema da mobilidade não estava devidamente tratado. Creio que a mobilidade dos estudantes é crucial para o futuro socio-económico da Madeira. Imagino que a Madeira deva perder (p. ex.) 20% dos seus jovens para outras universidades e deve recuperar estes 20% de alunos de outras partes, do continente primariamente. Precisa de uma estratégia para este fim. Depois, os 80% de madeirenses que lá estudam devem poder fazer um Erasmus noutra universidade, no continente na maioria (o verdadeiro Erasmus atinge 10% dos licenciados actualmente). E deve tentar atrair estudantes das Universidades do continente. (…) Perderá alguns dos seus jovens. Terá de ir buscar jovens a outros sítios.
Esta minha reflexão é, obviamente, uma adaptação do que penso para Portugal. Para a Madeira é uma necessidade reforçada.
4. Qualidade
Actualmente a percepção generalizada é que os madeirenses que cá chegam não dizem muito bem do ensino básico e secundário madeirenses.
Compreende-se que haja alguma tentativa de protecção mas o sucesso da Madeira depende de ela não temer a “globalização”, aceitar perder alguns e atrair muitos, dos melhores que vão contribuir para o sucesso da Madeira. O que se faça na UMa tem de ter qualidade internacional! (Este objectivo não pode ser para todos! Não o é nos outros países).
A UMa tem necessidade de saber segmentar o seu público de oferecer educação de alto nível mas oferecer também o que outros jovens querem, um simples estacionamento enquanto crescem…
5. Segmentação
Toda a gente defende o sistema binário em Portugal. Ninguém assume isso na Madeira? Não sei qual é a solução. Não me chocaria minimamente que tivéssemos “new universities”. Na Madeira a UMa terá de ser uma “old” e uma “new” university. Até que ponto deve assumir isto não sei. Mas tem de o ser.
Tendo poucos alunos não poderá cometer o erro de aceitar todos! Nos próximos anos teríamos de fazer chegar cerca de 80% dos jovens aos 12 anos de escolaridade mas só 50% entrarem na universidade. Isso significa dizer ao governo (Lisboa ou Funchal) que o profissional também é importante. Ser capaz de dizer NÃO ao cómodo facilitismo de aceitar todos! O problema que resta é o de fazer conviver várias culturas numa mesma instituição.
6. Investigação & Inovação
Seria um erro pensar que todos os docentes da UMa vão ser investigadores de nível internacional! Mas seria preciso aproveitar a vontade de todos o serem e encaminhar essa capacidade para investigação aplicada à promoção da inovação no tecido socio-económico madeirense. Fazer pouca investigação e só da melhor. Fazer muita inovação e esta com ligação directa ao tecido local. Será que o governo regional poderá compreender isto melhor do que o nacional?
7. Algumas notas soltas sobre a “Configuração Geral do Modelo”
a) Modelo 3+2
A conversão num 3+2 precisa de uma liderança que não temos. As engenharias tentam evitar um 3+2 firme e este precedente é grave por ir necessariamente contagiar muitas outras áreas dado o prestígio social da engenharia em Portugal. Outro problema para a aceitação do 3+2 foi a ambiguidade introduzida pela recente alteração da Lei de financiamento. A sociedade portuguesa vai sentir Bolonha mais fortemente através da redefinição da licenciatura. É um problema que eu tinha posto à Ministra Maria da Graça e que parece não ter sido ainda enfrentado. Muitos contratos colectivos de trabalho e toda a função pública estão organizados em torno dos velhos graus académicos. Como será possível conter as pressões de reclassificação quando aparecerem novos graus mais curtos?
b) 4 cadeiras por semestre
Inteiramente de acordo em que se fixem créditos á partida. Depois o docente terá de construir a sua disciplina para maximizar os objectivos de aprendizagem dentro desse tempo de trabalho do estudante que lhe cabe gerir, tele-gerir. Não sei se devem ser todas iguais, 4×7,5 ou, por exemplo, 3×9+3. As cadeiras normais seriam de 9 créditos. Os 3 restantes seriam ainda 80 hr de trabalho! Seriam, por exemplo, usadas para uma tarde semanal de actividade de projecto e uma noite de discussão-debate, isto durante as 10 primeiras semanas de cada semestre. A segunda metade do semestre ficaria para “coisas mais sérias”, quando o exame começasse a assustar.
c) Competências transversais
Não sei como está a pensar criar cadeiras para as competências transversais. Parece-me mais que estas deverão ser criadas com outras estratégias e dentro das aprendizagens normais. / cadeiras por semestre surpreende-me (por parecer muito).
d) Gabinete ECTS
Parece-me fundamental que haja uma entidade de certificação interna que ajude os professores e os directores de curso a afinarem a conversão do conceito de escolaridade (T+P) em ECTS.
e) Elevadas taxas de abandono
A nossa taxa de insucesso oficial é igual à norte americana! É um problema menor, o que não quer dizer que não seja ainda um problema. Problema maior, creio, é o de saber que aprendizagens com sucessos que rapidamente têm subido nos últimos anos. O problema do 1º ano é sério e devem explorar-se todas as possibilidades de ajudar o estudante a definir a sua orientação. Se for possível adiar por um ano a escolha de curso, isso seria óptimo.
f) Que a organização das disciplinas não emane dos departamentos…
Isto não é só para o primeiro ano…
g) Aprendizagem formal da comunicação escrita e oral.
É importante, crucial mesmo, mas não acredito que se faça em disciplina separada nem com créditos especiais. Cada unidade curricular poderá induzir aprendizagens e competências transversais.
Não será necessário separar as aprendizagens mas é necessário explicitar estes objectivos em formato matricial.
h) Língua estrangeira
A língua estrangeira é importante mas, se não foi aprendida em 12 anos de escolaridade, será agora numa disciplina?… Já disse acima que a mobilidade deve ter ainda mais atenção.
i) TIC
Não acredito que se aprendam numa disciplina autónoma. (Já no secundário a aprendizagem autónoma funciona mal.)
j) Redução da carga horária para 16-20hr/sem.
CUIDADO!!!
Creio que esta tendência faz correr grandes riscos! Depois da loucura da subida das escolaridades para dar trabalho a mais um docente… descobrimos que afinal com os rácios fixados isto não paga e que é melhor mandar os estudantes para o café!
Copiamos de instituições onde a cultura de aprendizagem é totalmente diferente. É falso que as escolaridades sejam mais baixas em toda a parte. Nas universidades francesas são mais baixas quando não têm professores… Nós estamos a pôr isto como uma modernização! Não é.
Depois de modernizarmos a cultura de aprendizagem, só depois podemos baixar a escolaridade.
o(s) primeiro(s) ano(s) e com alunos mais fracos ou menos motivados o desastre é garantido!


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