Contributo de Belmiro de Azevedo
Published by Nuno J. Nunes December 20th, 2005 in Contributos![]() |
Belmiro de Azevedo, Eng. Químico, Presidente do Conselho de Administração da SONAE S.G.P.S., Membro do World Business Council for Sustainable Development, Membro da Regional Advisory Board e “Honorary Fellow” da London Business School. |
Tópicos de apreciação do documento “Projecto de Bolonha, da Universidade da Madeira (Novembro 2005)
- 1. Fiquei muito positivamente impressionado pelo conteúdo do documento elaborado pelo “Grupo de Bolonha” da Universidade da Madeira (UMa). Confesso mesmo que excedeu todas as minhas expectativas iniciais, habituado que estou a um certo défice de convicção quanto a possibilidade de as universidades em Portugal serem reformáveis “por dentro”.
- 2. Trata-se de um documento de que transpira uma concepção corajosa, aberta, moderna e arejada da Universidade do futuro, suportado numa leitura muito precisa e consciente das oportunidades e adversidades que a UMa enfrenta no âmbito da adaptação de conteúdos curriculares e estruturas de funcionamento ao Processo de Bolonha, designadamente as resultantes da sua posição geográfica ultraperiférica e insular no quadro da EU.
- 3. As recomendações contidas no documento constituem, a meu ver, uma excelente proposta de reforma da oferta de educação de nível superior no âmbito da UMa, e deveriam, aliás, ser extensíveis às demais universidades nacionais, todavia sem prejuízo do direito -mais, até, da obrigação -da procura da diferença e das tendências de especialização de cada escola.
- 4. Creio, de resto, que a coragem e lucidez da proposta apresentada pela UMa beneficiará significativamente da circunstância de se tratar de uma universidade relativamente jovem, por isso mesmo muito mais ágil e consciente do alcance e implicações das mudanças por que o Mundo está -e vai continuar -a passar no Séc. XXI.
- 5. Retive, em particular, algumas concepções constantes do texto, que em muito se identificam com a visão que, ao longo dos últimos anos, tenho publicamente veiculando no que toca aos desafios que se colocam as universidades portuguesas no mundo actual:
- a) O reconhecimento de que Bolonha não pode, nem deve, ser encarado como um processo unificador, eliminador do direito - e do dever - de cada escola fomentar a sua própria diversidade e especificidade, atitude bem-vinda num país em que a competição, a comparação e a concorrência são tradicionalmente encaradas (muito erradamente) como realidades estranhas ao mundo da educação e do ensino;
- b) O imperativo de preparar as universidades portuguesas para a provável -porventura mais que certa - instituição a nível europeu de padrões de reconhecimento internacional de programas, cursos e ciclos de formação;
- c) A necessidade de apostar em formações de banda larga (nomeadamente ao nível do 1º Ciclo), com solidez científica, tendo mais em vista a empregabilidade ao longo do ciclo de vida do indivíduo do que propriamente a “preparação para o emprego”, vs. “para o primeiro e único emprego na vida”; aposta que, de resto, se concilia com a lógica de desenvolvimento de carreiras em “zig-zag”, em que o indivíduo, motivado pelo gosto pela mudança, possa percorrer ciclos alternados de aprendizagem e de desenvolvimento profissional;
- d) A consciencialização de que a aprendizagem activa e a intensificação da relação professor-aluno deve manter primado sobre o tradicional ensino passivo e “sebentistico”, e de que os hábitos de aprendizagem activa, autónoma ou não, devem ser imanentes ao indivíduo ao longo de toda a sua vida;
- e) A assumpção de que a universidade deve ensinar a pensar, a fazer, e a saber fazer, mais do que fomentar a transmissão e aquisição de conhecimento epistolar, efémero e perecível;
- f) A eleição de um “desafio de excelência” que compagine (o que nem sempre é fácil) as missões de bem ensinar (missão primeira) e de investigar, de produzir novo Conhecimento e de fortalecer a ligação da universidade ao meio empresarial e à sociedade;
- g) O reconhecimento de que a reforma do sistema educativo passa pela imperativa recentragem do ensino e da escola no estudante, a “matéria-prima” e o “produto acabado” transformado no seio do sistema;
- h) A interiorização de que existe -e existirá, cada vez mais - competição e concorrência entre escolas e universidades, e que a UMa tem que se preparar para a sua intensificação nas próximas décadas, ambiente em que não deverá nunca ser descurado o genuíno primado da meritocracia, o domínio da renovação das instituições sobre uma lógica de perpetuação de lugares e estatutos e a avaliação independente, rigorosa e continua das escolas e seus professores;
- i) O reconhecimento de que as “elites” científicas e culturais são essenciais ao desenvolvimento económico e social, Sem prejuízo da clara assumpção de responsabilidades públicas no sentido de obstar à exclusão de todos quantos revelem mérito e elevado potencial, independentemente de condicionantes de ordem financeira dos agregados familiares;
- j) A opção, assumida, clara, descomplexada e sem ambiguidades, de uma estratégia educativa baseada na prevalência do modelo anglo-saxónico de escola superior, fundeado na educação liberal e na formação integral do indivíduo, em evidente ruptura com um modelo tradicional, pesado, imobilista, centralista e excessivamente estatizado de oferta de educação de nível superior;
- k) A assumpção, correctíssima, de que um modelo de educação liberal é o mais consentâneo com a criação de condições de empregabilidade, a instituição de hábitos de aprendizagem contínua ao longo da vida e o fomento da capacidade de empreendedorismo e inovação dos jovens;
- l) A interiorização de que as capacidades de comunicação escrita e oral -nesta se incluindo a capacidade de persuasão e do uso da retórica -dos estudantes são essenciais à sua formação como indivíduos e profissionais, em contraponto com um modelo decrépito que vinha relegando para plano secundário - a pouco e pouco e, em certos casos, por completo - a avaliação das capacidades de comunicação e expressão oral dos alunos;
- m) A consciência de que o ensino de línguas e culturas estrangeiras é cada vez mais indispensável num mundo global e em constante mudança;
- n) O reconhecimento do papel crucial que a formação ética e deontológica dos estudantes é indissociável da formação do indivíduo, qualquer que seja a sua área académica e profissional de especialização;
- o) A consciencialização, por fim, de que a adaptação da UMa ao Processo de Bolonha deve fazer-se por etapas e gradualmente, nomeadamente não prejudicando a progressão escolar de actuais alunos e o estatuto de antigos alunos, e de que as grandes reformas internas só operam eficazmente se conduzidas através do debate alargado, dentro e fora da instituição universitária.
- 6. O mérito que assim revejo na perspectiva da UMa face ao processo de Bolonha não me impede, todavia, de apelar muito em especial para a necessidade de uma clara assumpção de que a missão fundamental da escola é formar e educar a pessoa (o aluno), prepará-lo para a vida, ao longo de toda a vida; e de que é a esta missão, primeira e mais nobre que deve ser dedicada a atenção e prioritariamente devotados os recursos humanos e materiais das universidades.
- 7. Bolonha é uma oportunidade, mas nenhuma oportunidade deixa de comportar riscos e ameaças. Em particular, o risco maior que antevejo é o de a relação professor-aluno se deteriorar ainda mais com o passar do tempo, agravando irreversivelmente a degradação relaciona1 já observada nas últimas décadas.
- 8. Bolonha não pode, nunca deverá servir, para que os professores se demitam (ainda mais) dos seus deveres primeiros e fundamentais: formar, educar, ensinar. Bolonha não pode servir para que os professores abandonem os alunos para se dedicarem a actividades “extra-curriculares” ou a investigação exotérica e sem relevância internacional visível. Não pode, nem deve servir, para que se atenuem cargas horárias, se eliminem provas e métodos de avaliação orais, se aligeirem métodos e cargas de avaliação e se descure uma cultura de mais exigência e mais rigor.
- 9. Este será, porventura, o aspecto em que o admirável documento do Grupo de Bolonha da UMa mais preocupação e incerteza me suscita neste momento. Deparei no documento, de facto, referências várias a questões como o “incentivo de estudo individual” e a “compatibilização da formação dos alunos com a formação dos docentes”. Não creio. contudo. que um modelo de educação liberal se possa construir seriamente sem uma articulação íntima, regular, de proximidade, de disponibilidade. entre alunos e professores.
- 10. Sendo, como são e continuarão a ser, governadas por professores, a dita “compatibilização” não poderá jamais descurar o dever de as escolas vigiarem muito de perto a atenção e o acompanhamento que os docentes dedicam aos seus estudantes. Figuras como o “professor-tutor” ou o “professor-mentor”, propostas pela UMa, são genuinamente positivas e bem-vindas, mas não bastam nem, muito menos, podem constituir paliativos ou panaceias para substituir um genuíno reforço da articulação entre quem sabe e ensina e quem aprende e estuda.
- 11. A missão primeira da escola é formar capital humano; para tal, subsidiariamente, há que formar formadores de elevado nível. Mas… subsidiariamente. O estudante tem que ser o centro da escola, não apenas por questões de retórica, mas por uma opção de facto e de fundo. Por sua vez, às boas escolas só interessarão professores genuinamente motivados para os deveres impostos pela profissão de ensinar e, a todos esses, devem ser propiciadas condições de elevada satisfação material e profissional.
- 12. No atinente à lógica dos “dois ciclos”, convirá também criar condições para que o 2º Ciclo não venha a constituir-se em sequência imediata da frequência do 1º Ciclo. É, a meu ver, fundamental que o estudante saído do 1º Ciclo goze de, no mínimo, dois a três anos de experiência profissional efectiva, e que só ulteriormente seja autorizado a reentrar no 2º Ciclo.
- 13. A vantagem de um “zig-zag” com a vida profissional é, a meu ver, dupla: para o estudante, e para a escola. Para se tomar efectiva, a aprendizagem não pode ser apenas livresca; tem que, além de transmitir “saber'’, ser capaz de municiar os jovens de “saber fazer” e de “saber fazendo”. Depois, só nessas condições o estudante entrado no 2º Ciclo estará apto a exigir mais da escola e dos professores e a acrescentar valor a um processo que não pode deixar de manter uma íntima articulação com a experiência profissional já vivida e desejada para o futuro. E se alguns estudantes “ficarem pelo caminho” entre o 1º e o 2º Ciclo, porque bem sucedidos profissionalmente, isso será altamente benéfico para o indivíduo, a sociedade e a economia.
- 14. Permito-me ainda sugerir que, nas várias formações, trate-se de cursos de Ciências e Tecnologias, ou de Artes e Humanidades, a UMa não negligencie a integração curricular de conteúdos que habilitem os estudantes a sentirem-se aptos a dar concretização a projectos de empreendedorismo e iniciativas empresariais. Nesse sentido, noções básicas de Economia, Gestão, Finanças, Direito dos Negócios, Marketing ou Análise e Estudos de Mercado parecem-me ser fundamentais em matéria de conteúdos curriculares que vivamente recomendo à Universidade.
A concluir, formulo os meus sinceros votos de que o documento do “Grupo de Bolonha” da UMa, um excelente texto, não venha a resultar desvirtuado na sequência da sua discussão alargada e no plano da sua concretização a breve prazo.
Muito agradeço ao Senhor Reitor da Universidade da Madeira a honra que me concedeu de poder formular este breve conjunto de apontamentos e de acompanhar o esforço, muito meritório, muito positivo, que tem vindo a ser desenvolvido no contexto da adaptação ao Processo de Bolonha.
Belmiro de Azevedo
Dezembro de 2005

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